Descubra como o processo de sublimação em Lacan e a banana na parede revela conexões entre arte, psicanálise e sociedade.

Lacan e a Banana na Parede: o processo de sublimação na arte e na psicanálise

Publicado em Publicado em Arte e Psicanálise

Neste artigo, exploramos como Lacan e a polêmica obra Comedian, conhecida como a “banana na parede”, podem nos ajudar a refletir sobre o processo de sublimação. A partir dessa provocação artística, discutiremos como a psicanálise entende o processo de sublimação na relação entre arte, desejo e sociedade, abrindo espaço para pensar a função simbólica da criação e do olhar humano diante do absurdo.

A escultura “Comedian” (“comediante” em português), uma obra de Maurizio Castelan, que na verdade é nada mais nada menos que uma banana presa a uma parede por uma fita crepe prateada, foi vendida em um leilão de arte, na casa de Leilões Sotheby’s (Londres, Inglaterra), por 6,5 milhões de dólares. O arremate da epigrafada “obra” foi feito por um empresário chinês, um milionário de 34 anos, Justin Sun, cujo principal negócio é o investimento em criptomoedas (ele foi o fundador da plataforma Tron).

Aliás, ele declarou que, segundo o G1, irá “comer pessoalmente a banana como parte dessa experiência artística única, honrando seu lugar tanto na história da arte quanto na cultura popular”. Mas o que essa formidável piada caríssima tem em relação com nosso ilustre Jacques Lacan?

O trinômio lacaniano

Primeiramente, vamos definir, muito rapidamente, o trinômio lacaniano.

O Real: diferentemente do conceito contido no dicionário, o real lacaniano é o inimaginável, incomparável. O real é o sofrimento que, só quem sente, sente. É incompreensível, enigmático, angustiante, extravagante. O real é a frustração (pelo enigma que não se compreende). O real, por ser “propriedade do rei”, é intocável. O real simplesmente é algo além das palavras, além da gramática.

O Simbólico: é o parâmetro externamente oferecido, defendido. É o ponto de comparação. O simbólico é o que estabelece estruturas, regras, leis. Ele dá significância ao que se tem por sociedade. O simbólico é a metáfora e a metonímia.

O Imaginário: enquanto o simbólico compara, o imaginário define, identifica. O imaginário corresponde ao momento em que o sujeito percebe-se como tal, como indivíduo, como existente. O imaginário é o “cogito, ergo sum” de Descartes. No imaginário, o sujeito se identifica com as imagens do outro e, aí, constrói sua imagem, sua identificação diante do mundo.

A banana e os significados do Real, Simbólico e Imaginário

Retornando à polêmica obra de arte “Comedian”, a nossa presa banana na parede, a banana nos leva à “banalidade”, o desprezível, comum. A banana é o Real. A banana de U$6,2 milhões é um deboche, é uma gargalhada diante de uma sociedade neurótica, que luta em silêncio, que quer significância e, portanto, acaba por “comer a banana”.

Os U$6,2 milhões de dólares (aproximadamente 38 milhões de reais) alcançados pela “obra de arte” são o simbólico, pois colocam em cheque os conceitos de preço (U$6.200.000) com o conceito de valor (uma banana).

O Imaginário, portanto, se refere à reação particular que esse leilão provocou nos diferentes sujeitos. Os assalariados, com renda mensal de cerca de um salário mínimo, imaginaram quanto poderiam gastar por dia até completar o valor da obra (a saber, 2289 anos, aproximadamente). Muitos imaginaram-se no lugar do comprador do “Comedian” e o poder que isso significaria.

A maioria, legitimamente indignada, tenta entender a distorção do real intocável que a riqueza proporciona, imaginando que o sujeito que arrematou a obra se coloca acima do bem e do mal, tripudiando sobre a sociedade que sofre. Ainda há o narcisismo declarado de Justin Sun, o arrematador do “Comedian”, quando declara que ao “comer” a obra estará adquirindo seu espaço na história.

A “Comedian” expõe o capitalismo cru ao questionamento do significado da desigualdade e da indiferença. O preço da obra questiona a diferença entre a lei e a justiça.

A arte como processo de sublimação

Mas e a arte? É uma banana que se pendura em uma parede? É comprável?

A arte, como diz o poeta, é porque a vida não é suficiente. Conforme Schopenhauer, referindo-se ao mundo marcado pela dor, a arte é uma fuga momentânea da imperfeição da vida. A arte surge como uma resposta ao real, oferecendo um instante de infinito.

A insuficiência da vida, a finitude, o sofrimento, o real indiscutível, são compensados pela arte, que nos desloca, introduzindo-nos ao imaginário. O próprio Freud considerava a arte como uma forma de processo de sublimação, um recurso no qual os desejos frustrados ou recalcados encontram-se como expressão de criações simbólicas. A arte era a única linguagem que Van Gogh conhecia para se relacionar com o mundo.

A arte está além da linguagem tradicional. Quem sabe, é a própria linguagem dos “anjos”, citada nos Atos dos Apóstolos na ocasião do Pentecostes. Ela capta o indizível, o irrefutável, define o real. A arte seria a expressão do amor, quem sabe, a localização do inconsciente freudiano.

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Trinômios na psicanálise e na cultura

Os trinômios estão presentes de forma frequente na história da humanidade. Na Igreja Católica, temos o Pai, “criador supremo”, o Filho, o “salvador”, e o Espírito Santo, o justificador.

Na psicanálise, em Freud, na sua primeira tópica, apresentam-se o Ics (o inconsciente), o Pcs (o pré-consciente) e o Cs (o consciente). Logo após, propõe o id, o ego e o superego.

Em Lacan, como vimos anteriormente, encontramos definidos o Real, o Simbólico e o Imaginário como o tripé que fundamenta toda sua teoria.

Fernando Belíssimo (sim, belíssimo, está na identidade), professor de matemática, engenheiro e psicopedagogo há 40 anos, apaixonado pela psicanálise de forma congênita, …, curioso desde sempre. Contato: [email protected]

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