Artigo sobre o gozo perverso e a estrutura psíquica do agressor, com base na psicanálise de Lacan, Winnicott, Klein e autores contemporâneos.

Psicologia do Agressor e Gozo Perverso

Publicado em Publicado em Psicanálise e Sociedade

Neste artigo, investigamos o conceito de gozo perverso sob a ótica da psicanálise, com foco na estrutura psíquica do agressor em casos de violência doméstica. A partir das contribuições de Lacan, Winnicott e Melanie Klein, discutimos elementos como o falso self, o narcisismo patológico, a forclusão do outro e a máscara do psicopata, revelando como a ausência de empatia e o prazer na transgressão podem sustentar dinâmicas destrutivas nos vínculos íntimos.

Esta é a terceira parte da série “Alma Sequestrada”, que aborda a violência doméstica a partir de fundamentos psicanalíticos. Aqui, aprofundamos a compreensão do funcionamento psíquico do agressor, revelando como estruturas perversas sustentam o ciclo de destruição.

A realidade dos números e o perfil dos agressores

Segundo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Brasil registrou um recorde de feminicídios em 2024: foram 1.492 assassinatos, 1% a mais que em 2023. O dado mais estarrecedor é que 80% desses crimes foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros. Isso revela que o lar, espaço que deveria ser de proteção, é muitas vezes o cenário do terror.

A máscara do psicopata e o falso self

O psicopata não se apresenta como monstro, ele seduz, encanta, manipula. Sua máscara é cuidadosamente construída para manter os outros a uma distância emocional calculada. Ele não se conecta, apenas controla. Na relação abusiva, essa figura se mostra como alguém que oferece amor, mas entrega destruição. A vítima, envolta nessa ilusão, demora a perceber que está diante de alguém cuja verdadeira natureza é a perversidade.

O psicopata não é apenas alguém que manipula ou engana, ele é um sujeito cuja estrutura psíquica se organiza em torno da ausência de empatia, da negação do outro como sujeito, e da instrumentalização das relações humanas. A “máscara” que ele veste não é apenas uma estratégia social: é uma defesa psíquica sofisticada, construída para sustentar um falso self funcional e sedutor.

Narcisismo patológico e forclusão do outro

  • Falso Self (Winnicott): O psicopata constrói um falso self altamente adaptado, capaz de simular emoções, desejos e vínculos. Essa máscara é uma armadura que encobre um vazio interno, uma ausência de verdadeiro sentimento de identidade.
  • Narcisismo Patológico: Há uma hipertrofia do ego e uma idealização de si mesmo. O outro é visto como objeto de uso, não como sujeito com desejos próprios.
  • Forclusão do Outro (Lacan): O psicopata não reconhece o outro como portador de lei ou limite. A alteridade é forcluída, ou seja, excluída radicalmente do campo simbólico. Isso permite que ele aja sem culpa, sem remorso, sem angústia.

Gozo perverso e ausência de conflito

Sedução como Ferramenta

A máscara do psicopata é feita de charme, inteligência, afeto simulado. Ele lê o desejo do outro com precisão e oferece exatamente o que é esperado — não por empatia, mas por cálculo. Ele seduz para dominar, envolve para controlar, promete para destruir.

  • Identificação Projetiva (Melanie Klein): Ele projeta no outro partes de si que não reconhece, e depois manipula essas projeções para manter o controle.
  • Gozo perverso (Lacan): O prazer do psicopata não está no vínculo, mas na transgressão. Ele goza ao ultrapassar limites, ao destruir o outro sem ser descoberto.

Ausência de Conflito

Diferente do neurótico, que sofre com o conflito entre desejo e lei, o psicopata não sofre. Ele não se angustia. Sua máscara é tão bem construída que ele pode parecer funcional, encantador, até altruísta. Mas por trás dela, se esconde um sujeito que não reconhece o sofrimento alheio, e que não se vê como parte de um laço social.

A máscara como estrutura do sujeito

Na psicanálise, a máscara do psicopata não é apenas um disfarce, mas parte da própria estrutura do sujeito. Ela não cai facilmente, porque não foi posta: foi construída como forma de existir. E é justamente por isso que o psicopata é tão perigoso. Ele não sente, não sofre, não se culpa. E por trás do sorriso, há um vazio que devora.

Na Parte 4 da série “Alma Sequestrada”, vamos falar sobre os caminhos possíveis de reconstrução do sujeito violentado, abordando o papel dos limites e da defesa psíquica na superação do trauma.

Parte 1: Alma Sequestrada: Complexos Inconscientes e as Origens da Violência Doméstica

Parte 2: Alma Sequestrada: Manipulação Psicológica e o Silenciamento da Vítima

Parte 3: Alma Sequestrada: Gozo Perverso e a Estrutura Psíquica do Agressor

Parte 4: Alma Sequestrada: Defesa Psíquica e a Reconstrução do Sujeito Violentado

Este artigo foi baseado no artigo original: “A Alma Sequestrada: A Psicanálise da Violência  (61 Socos em 36 Segundos, a Brutalidade que Fala por Si)” de Julieta Pedrosa, Analista em formação. Graduada em Arquitetura e Urbanismo/UFRJ. Pós-graduada em Análise e Avaliação de Projetos/FGV. Formada em Gemologia e CAD/CAM pelo GIA-Gemological Institute of America, com diversos cursos nacionais e internacionais na área da Joalheria. Designer de joias no Julie Joias Brasileiras Atelier (IG @juliejoiasbrasileirasatelier), produz também conteúdo diário sobre psicanálise e autoconhecimento no IG @analisandose_ Escritora, professora de História da Joalheria e de Gemologia. Livro: Pequenos Contos no Espelho, disponível na Amazon https://encurtador.com.br/uRZP5

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