Neste artigo, exploramos o conceito de recalque pulsional na filosofia de Nietzsche, articulando-o à vontade de potência, à figura de Zaratustra e à ideia de sujeito dividido. A partir do diálogo entre Nietzsche, Freud e Lacan, propõe-se uma leitura clínica e ética do pensamento nietzschiano, que desafia as normas morais tradicionais e abre espaço para uma escuta mais livre do desejo.
Nietzsche, Inconsciente e o Recalque Pulsional
Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da obra de Friedrich Nietzsche, focalizando seus principais conceitos filosóficos à luz da teoria psicanalítica clássica e contemporânea. Com ênfase na figura de Zaratustra e no conceito de “vontade de potência”, examina-se o lugar do inconsciente nietzschiano, o papel da pulsão e a crítica à moral como sintomas de um processo de recalcamento civilizatório.
Por meio de um diálogo entre Nietzsche, Freud e Lacan, busca-se compreender como o pensamento nietzschiano pode contribuir para uma clínica e uma teoria do sujeito menos normativas, mais abertas ao trágico da existência e à singularidade do desejo.
Nietzsche, psicanálise e a figura de Zaratustra
A obra de Friedrich tem se revelado um terreno fértil para interlocuções interdisciplinares, especialmente com a psicanálise. Embora Nietzsche tenha antecedido Freud cronologicamente – a primeira edição de “A Interpretação dos Sonhos” data de 1900, enquanto “Assim Falou Zaratustra” foi publicado entre 1883 e 1885 -, seu pensamento já continha elementos que viriam a se tornar estruturantes na teoria psicanalítica.
Ainda assim, a recepção de Nietzsche no campo analítico sempre oscilou entre o fascínio e a resistência, refletindo a ambiguidade com que sua filosofia se inscreve no pensamento clínico.
Este artigo propõe explorar os pontos de intersecção entre Nietzsche e a Psicanálise, especialmente na leitura freud-lacaniana do sujeito, a partir da análise de conceitos-chave e personagens filosóficos nietzschianos, com destaque para a figura de Zaratustra. Trata-se, em última instância, de pensar uma clínica atravessada não apenas pelo inconsciente, mas também pela afirmação trágica da existência.
Sujeito dividido e vontade de potência
Nietzsche desconstrói a noção de sujeito como entidade unitária, soberana e racional. Para ele, o sujeito é um campo de forças em disputa, um agenciamento dinâmico e instável entre impulsos muitas vezes contraditórios. Essa concepção encontra eco na teoria freudiana do aparelho psíquico – com a cisão entre id, ego e superego -, e também no “Sujeito Dividido” de Lacan, cuja a constituição se dá a partir da linguagem e do inconsciente.
A “vontade de potência“, conceito axial em Nietzsche, pode ser relida psicanaliticamente como uma pulsão não reduzida ao princípio do prazer, mas orientada pela expansão, superação e criação. Trata-se de uma força que excede a economia do gozo e que se aproxima da pulsão de morte em sua dimensão afirmativa, não como aniquilação, mas como transgressão da homeostase.
Ao afirmar que o homem é um “animal ainda não fixado“, Nietzsche introduz a ideia de um sujeito em permanente devir, sem essência última, radicalmente aberto ao acaso e à contingência. Essa indeterminação ontológica coloca o sujeito no centro de uma dinâmica pulsional que escapa à tentativa de fechamento identitário.
Zaratustra e o além-do-homem como figura clínica
A figura de Zaratustra, personagem central de “Assim Falou Zaratustra”, pode ser compreendida como uma espécie de analista trágico – alguém que, ao invés de anunciar verdades absolutas, convida o sujeito à travessia do desamparo e da transvaloração dos valores. Ele desce da montanha, não como profeta moralizador, mas como um vetor de desidentificação, de desautomatização dos modos normativos de subjetivação.
O “Além-do-Homem” proposto por Zaratustra não deve ser confundido com um ideal normativo de perfeição. Antes, trata-se de uma figura conceitual que simboliza a abertura ao novo, à diferença e à possibilidade de sustentar o desejo fora da lógica da culpa. Esse deslocamento ecoa a posição ética do analista lacaniano, que, ao operar pelo corte, destitui o sujeito de seus ideais imaginários e o confronta com a falta estrutural.
Assim, Zaratustra distancia-se da função superegóica de comando e moralização. Ele evoca, em vez disso, uma escuta do real, uma disposição à experiência do abismo que constitui o sujeito.
Recalque pulsional e crítica à moral
Nietzsche foi um dos críticos mais incisivos da moral ocidental, especialmente da moral judaico-cristã, que ele identifica como expressão do ressentimento dos fracos diante da potência dos fortes. Em “A Genealogia da Moral”, ele mostra como os valores morais emergem historicamente como um mecanismo de inversão da hierarquia vital, fundado na negação da pulsão e na glorificação do sofrimento.
Freud, por sua vez, teoriza a culpa como consequência do recalque pulsional, ligado à formação do superego. No mito do pai primordial em “Totem e Tabu”, o crime original – o assassinato do pai – funda o laço social, mas também inaugura o mecanismo da repressão. O que em Freud é vivido como culpa, em Nietzsche é denunciado como sintoma de uma civilização doente.
Ambos os autores convergem, portanto, na crítica à cultura como instância repressora das forças vitais. A divergência se dá quanto ao estatuto necessário desse sacrifício: Freud o reconhece como fundacional, Nietzsche o recusa e propõe uma ética afirmativa, que não demoniza a pulsão, mas a integra como motor da criação e da diferença.
Eterno retorno, repetição e ética do desejo
O eterno retorno, um dos conceitos mais enigmáticos de Nietzsche, pode ser articulado com a noção freudiana de compulsão à repetição. Enquanto Freud vê a repetição como retorno do recalcado, Nietzsche propõe o eterno retorno como um desafio ético: viver de tal modo que se possa desejar reviver infinitamente cada instante da vida.
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Essa perspectiva subverte a lógica neurótica do arrependimento e do recalque. A repetição nietzschiana não é retorno do mesmo no sentido mecânico, mas a possibilidade de afirmar o vivido sem reservas, o que implica uma reconciliação com o trágico da existência.
Lacan também trabalha a repetição como estrutura do desejo, articulada ao conceito de “objeto a” como causa do desejo. O eterno retorno nietzschiano, nesse sentido, pode ser pensado como o retorno da falta, daquilo que escapa à simbolização e que constitui o sujeito como desejante.
Considerações finais sobre a clínica e a diferença
Nietzsche não é um autor da Psicanálise, mas sua filosofia oferece uma via radical de escuta da experiência humana que ressoa profundamente com os fundamentos de uma Psicanálise não normatizante. A sua crítica à moral, sua recusa da essência do sujeito e sua aposta na afirmação da vida tornam-se contribuições valiosas para uma clínica orientada não pela adaptação, mas pela abertura ao desejo e à singularidade.
Ao colocar em questão os pilares da tradição: sujeito, verdade, moral e ideal; Nietzsche prepara o terreno para uma ética da escuta, onde a subjetivação não se faz pela norma, mas pelo atravessamento do real. Em um tempo de crescente patologização do sofrimento e normalização da vida, seu pensamento permanece como um chamado ao risco, à diferença e à liberdade.
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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
