A Sagração da Primavera revela pulsão de morte, inconsciente coletivo e rito de castração na música de Stravinsky.

A Sagração da Primavera: pulsão de morte, inconsciente coletivo e rito de castração na música de Stravinsky

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Vamos explorar como A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, pode ser lida pela psicanálise como um mergulho no inconsciente coletivo. A obra expõe a força da pulsão de morte e dramatiza um rito de castração simbólica, revelando o poder do corpo, do ritmo e do sacrifício na construção da cultura.

Igor Stravinsky (1882–1971) rompeu com o mundo musical do século XX não apenas formalmente, mas ontologicamente: a sua música não organiza, ela desestrutura; não consola, convulsiona. Em especial com “A Sagração da Primavera” (Le Sacre du Printemps, 1913), Stravinsky criou um campo sonoro que não busca representar o belo, mas evocar o real – aquele registro lacaniano que está além do simbólico, que fere, que insiste.

Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da música de Stravinsky, com ênfase em “A Sagração da Primavera” como evocação de um gozo primordial, de uma pulsão sem travas, de um inconsciente arcaico anterior à linguagem. Mais do que compor, ele parece escavar o desejo coletivo em sua camada mais ancestral: o sacrifício, o corpo, o ritmo do inconsciente.

O trauma do moderno e o retorno do reprimido

Quando “A Sagração da Primavera” estreou em Paris no Théâtre des Champs-Élysées, em 1913, causou um verdadeiro motim no teatro. O público burguês, acostumado à harmonia romântica e à decência melódica, foi confrontado com uma música dissonante, pulsante, violenta, acompanhada por uma coreografia brutal de corpos em transe. Mais do que um espetáculo, foi um ato traumático. O escândalo não foi estético, mas psíquico: o retorno do reprimido.

Na psicanálise freudiana, o trauma é aquilo que rompe a proteção narcísica do Eu. A música de Stravinsky, especialmente nessa obra, não reforça o ego, ela o desorganiza. É a irrupção do que Lacan chama de real não simbolizável, uma experiência que não pode ser traduzida em palavras nem domesticada pela cultura.

“A Sagração da Primavera” é, portanto, mais do que música: é um evento pulsional, onde o sujeito ouvinte perde sua estabilidade simbólica e se vê lançado a um tempo anterior à linguagem.

Ritmo, corpo e pulsão de morte

Stravinsky substitui a melodia por ritmo. Essa escolha não é apenas estética, mas psíquica. A melodia organiza o tempo de maneira simbólica, narrativa. O ritmo, ao contrário, apela ao corpo, à repetição, ao excesso, ao automaton da pulsão (como diz Freud em “Além do Princípio do Prazer”).

A música de “A Sagração da Primavera” não evolui: ela ritualiza. É a dança de uma jovem escolhida para morrer, um sacrifício arcaico para assegurar a fertilidade da terra. Esse enredo evoca o que Freud identificou como pulsão de morte: uma compulsão à repetição, à dissolução do Eu, à entrega do corpo ao gozo sem limite.

O sacrifício da donzela não é apenas mítico, é psíquico. É o Eu que se desmancha diante da força da pulsão. Stravinsky nos mostra que, antes da cultura, havia o corpo em dança e que a arte pode ser o lugar onde esse corpo reencontra seu gozo primordial.

Inconsciente coletivo e a posição do compositor

Ao contrário de Beethoven ou Chopin, em Stravinsky o sujeito da obra não é o eu lírico. Ele mesmo afirmou: “A música é incapaz de expressar qualquer coisa, exceto a si mesma”. Essa afirmação parece paradoxal, mas revela um movimento psicanalítico importante: a renúncia à ilusão narcisista de expressar o Eu.

Stravinsky não projeta seu drama interior: ele estrutura o gozo coletivo. Ele retira o Eu do centro da cena e deixa a música falar por si, como manifestação quase impessoal de uma força maior – o inconsciente coletivo, o mito, o ritual.

Essa posição pode ser associada ao que Lacan chama de “sujeito do significante”: não aquele que fala, mas aquele que é falado – pela linguagem, pela cultura, pelo desejo do outro. Assim, deixa-se falar pela pulsão, pelo ritmo, pelo trauma arquetípico da civilização.

Rito de castração e cultura simbólica

O sacrifício da jovem escolhida em “A Sagração” pode ser lido como um rito de castração simbólica coletiva – o gesto fundador de toda cultura segundo Freud (em “Totem e Tabu”). A comunidade, para se manter, deve renunciar ao gozo total; deve inscrever a perda como condição de pertencimento.

Na peça, essa jovem dança até a morte, literalmente, como oferenda à primavera. Esse gesto radical dramatiza a renúncia à plenitude em nome de algo maior – o outro, a ordem, o ciclo da vida. Em termos psicanalíticos, é o momento em que o gozo se converte em cultura, mas não sem resistência, não sem dor.

Stravinsky inscreve, assim, em sua música, uma operação simbólica fundamental: o ato sacrificial como fundação do desejo, como passagem do real ao simbólico. A sua música não narra esse rito: ela é o próprio rito.

Conclusão

Igor Stravinsky não compôs música para agradar, mas para inquietar. A sua obra, especialmente, “A Sagração da Primavera”, desvela o inconsciente coletivo, convoca o corpo pulsional, encena o trauma originário da cultura. A sua estética é menos representação e mais ato psíquico: uma forma sonora do real que não se simboliza, mas se dança, se repete, se sofre.

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Sob a ótica da psicanálise, Stravinsky é o compositor que nos lembra que a arte não é apenas sublimação do desejo, mas também confronto com o gozo bruto. Ele nos devolve ao momento em que a música era rito, corpo, sacrifício e nos força a escutar não com o ouvido, mas com o inconsciente.

Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.

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