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A História do Olho: narrativa erótica de George Bataille

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A História do Olho é um breve romance do autor francês George Bataille.

Entendendo a História do Olho

O livro foi publicado em 1928. George Bataille nasceu em Billom, na França, em 1897. Trabalhou por como arquivista da Biblioteca Nacional da França e foi editor da revista Critique, de 1946 até sua morte, em 1962. Bataille se aproximou do movimento surrealista em sua juventude, tendo sido posteriormente um dos membros fundadores do Collège de Sociologie francês.

Sua obra é múltipla, composta de poemas, romances, ensaios e conferências. Entre seus textos mais notáveis estão O erotismo (1957) e A literatura e o mal (1957). Essa temática, a saber: o erotismo é um tema comummente abordado em sua obra. A visceralidade e profundidade explícita do desejo e da sexualidade são uma marca de sua escrita.

Temas como sexo, masturbação, genitálias e, sumamente, a humanidade em sua natureza mais evidente são tratados com uma naturalidade que choca e desarma o leitor propondo uma visão íntima acerca do florescer do desejo e da vivência do sexo. A narrativa é homodiegética com o narrador sendo o protagonista do texto.

Ainda sobre a História do Olho

Além disso, a história é contada através de uma sequência de cenas mostradas em formato de sumário. Nesse sentido, desde a primeira página do livro somos apresentados à essa visão participativa, como nos excertos seguintes:

“Fui criado sozinho e, até onde me lembro, vivia angustiado pelas coisas do sexo.” (Bataille, p.25, 1928).

“Os passos cessaram; não podíamos ver quem se aproximava, seguramos a respiração. O cu de Simone, erguido daquele jeito, parecia na verdade uma poderosa súplica: era perfeito, as nádegas apertadas e delicadas, a rachadura profunda.” (idem, p.27)

O olhar do narrador sobre a História do Olho

“A partir dessa época, Simone adquiriu a mania de quebrar ovos com o cu. Para isso, colocava a cabeça no assento de uma poltrona, as costas coladas ao espaldar, as pernas dobradas na minha direção enquanto eu batia punheta para esporrar em seu rosto

Só então eu punha o ovo em cima do buraco: ela se deliciava a mexer com ele na rachadura profunda. No momento em que a porra jorrava, as nádegas quebravam o ovo, ela gozava, e eu, mergulhando o rosto no seu cu, me inundava com aquela imundície abundante.” (idem, p.30)

Ainda dentro dessa perspectiva, é possível observarmos que Bataille se empenha para construir uma perspectiva narrativa que passa pelo olhar do narrador, mas que não abrange a intimidade dos pensamentos das demais personagens. Isto é, o protagonista narra o texto e conhecemos uma recorte de seus pensamentos e ideias, mas tanto a completude dos outros participantes nos são estranhas quanto a própria integridade do ser que narra o texto.

O erotismo e a sensualidade

Além disso, o texto é narrado no passado, mostrando ser uma rememoração de fatos já ocorridos. Em outras palavras, A História do Olho possui uma instância narrativa homodiegética com a perspectiva passando pelo autor. Observe-se o seguinte excerto:

” Marcela, que saltara do armário cambaleante e soltando grunhidos informes, ao olhar-me de novo, recuou como se deparasse a morte; tombou no chão e deixou escapar uma ladainha de gritos inumanos.” (idem, p.33)

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Fora essas observações, podemos lançar um olhar para as personagens do texto. Bataille lança mão frequentemente da caracterização das personagens por meio do enfoque em suas atitudes.

A pulsão em: A História do Olho

Essas, por sua vez, demonstram ao longo do texto tanto o despertar de uma pulsão ardente, que se revela numa sexualidade crua e isenta de ponderações morais, quanto na própria evolução do relacionamento das personagens, como no exemplo a seguir:

“Vivi assim alguns dias; voltávamos para casa noite adentro. Dormíamos no quarto dela, onde eu ficava escondido até anoitecer. Simone me trazia comida. A mãe dela, a quem faltava autoridade (no dia do escândalo, mal começou a gritaria e ela saiu de casa), aceitava a situação” (idem, p.35)

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    Nesse sentido, há uma hierarquia demarcada por uma autonomia diferencial, na qual determinadas personagens aparecem mais vezes (como o narrador da história e Simone) e tem sua individualidade mais explorada (por meio do fluir de suas atitudes) enquanto outras (como os pais dos protagonistas) têm uma menor participação e, portanto, são menos exploradas. Seguindo a perspectiva de análise proposta por REUTER (2002), podemos observar que a narrativa de Bataille designa para o narrador-protagonista um lugar de sujeito em conflito.

    Um conflito atávico

    O jovem vive um conflito atávico com a moral de seu tempo e os escândalos sexuais e completa ruptura e subversão dos princípios de “boa conduta” são uma maneira dele expressar sua revolta e desprezo contra um sistema vazio de normas e padrões. Até mesmo o laço familiar deixa de ser impeditivo ao escândalo, na medida em que Simone e o protagonista possuíam um ” parentesco longínquo”.

    Isso, na verdade, antes de ser impeditivo parece ser um atrativo à ideia de romper com a moral e o “horror ao incesto”. Ou seja, o desejo dos personagens um pelo outro é fomentado pelo elo sanguíneo. Simone, nessa trama é, pois, adjuvante do protagonista ao mesmo tempo em que representa a outra face do desejo.

    Com isso, digo que, mais do que constituir um par literário, Simone é a portadora do Objeto de Desejo do protagonista. Ela representa o lugar do outro na narrativa; do desconhecido (pois somente conhecemos recortes das ações de Simone) e, sumamente, do desejo. Frequentemente, é referida a atração que o protagonista sente por ela e, ainda mais, seu “olho” , que nomeia o livro.

    Considerações finais

    Assim sendo, ler George Bataille representa um mergulho no mais cru e pulsional do ser humano. A leitura é um desafio na medida em que obriga o leitor a deixar de lado a moral e o olhar fantasioso para o sexo e encarar uma realidade que é instinto, vísceras e ardor. Afinal, na obra a nudez do ato sexual é levada para além do corpo. Tudo é desnudo: o caráter, a moral, a fantasia de sociedade e sentimentos.

    O que há é instinto e isso é (e quiçá deva ser fora do texto também) aceito com naturalidade e não sob uma ótica moral. Ademais, poderíamos afirmar que esse aspecto do texto, uma vez superado, abre portas para uma leitura mais profunda acerca do ser humano.

    No entanto, a mensagem de Bataille reside justamente no aspecto da sexualidade, tendo em si mesma a mensagem da visceralidade inescapável, que é a existência do homem.

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    Referências Bibliográficas

    BATAILLE, George. A História do Olho. Tradução de Eliane Robert Moraes. São Paulo: Ed. Cosac Naify, 2005. REUTER, Yves. A análise da narrativa: o texto, a ficção e a narração. Tradução de Mário Pontes. Rio de Janeiro: DIFEL, 2002(1997). (Capítulo 3 e 4)

    Este artigo foi escrito por Gabriel Montes, psicanalista egresso do IBPC, acadêmico de História e Letras e colunista do blog oficial do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica. Sua área de pesquisa envolve cultura, literatura e feminilidade. Também atua como psicoterapeuta em atendimento virtual. Contato: (65) 99934-0423.

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