Reflexões sobre a ansiedade neurótica no capitalismo e seus impactos na subjetividade da classe trabalhadora.

Ansiedade Neurótica no Capitalismo: Entre o Sujeito e a Estrutura Social

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Neste artigo, vamos explorar o conceito de ansiedade neurótica em sua relação com o capitalismo e a estrutura social contemporânea. A partir de uma perspectiva psicanalítica, o texto analisa como os sujeitos, especialmente os pertencentes à classe trabalhadora, vivenciam formas intensificadas de sofrimento emocional frente às exigências econômicas, culturais e subjetivas da vida moderna. O autor articula teoria, crítica social e clínica, evidenciando a dimensão coletiva do adoecimento psíquico e as possibilidades de enfrentamento por meio da psicanálise e da ação política.

Ansiedade neurótica e estrutura de classe

Sobre o tema da ansiedade e seus desdobramentos a partir da visão freudiana, desmembrando os três aspectos que compõem a manifestação da ansiedade: realística, neurótica e moralística. Irei me deter no componente neurótico e relacioná-lo ao âmbito social circundante do sujeito comum, pertencente à classe proletária.

A ansiedade neurótica é a expressão do medo que o sujeito sente ao pensar na possibilidade de perder o controle de seus impulsos em uma determinada situação que lhe causa pressão ou por parte de pensamentos intrusivos, o que acarreta sensações de ansiedade e angústia, por exemplo.

Nos moldes da sociedade em que vivemos, geridos por um sistema capitalista, somos levados aos limites da exaustão numa busca incessante por conquistas materiais e status, enquanto outros conseguem obter os poucos recursos que são capazes de apenas manter sua subsistência, geralmente em empregos precarizados e longas jornadas de trabalho, sem perspectivas de mudanças concretas.

Assim, a estrutura econômica estabelece uma estreita relação com a ansiedade neurótica, propiciando o esgotamento físico e mental da classe trabalhadora, que convive não apenas com o medo concreto da miséria, mas também de não alcançar os ideais de sucesso, que são fruto da ideologia dominante e que penetram profundamente no psiquismo, ideais esses que costumam ser inatingíveis ou, quando alcançados, exigem um custo (não apenas monetário) elevado.

Marx e Engels (1846) na obra “A ideologia alemã”, expressam de forma objetiva e magistral como essa influência se instaura de forma quase onipresente, “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes(…)”.

O vazio como motor de consumo e sofrimento

Somos levados desde cedo a desejar roupas de marcas famosas, o celular mais atualizado, o automóvel do ano, o melhor e mais alto cargo numa empresa, na vã esperança de preencher o nosso vazio gerador de angústia, essa angústia que é constituinte do ser humano, como disse Sartre no livro “O existencialismo é um humanismo”, categórico ao afirmar que “(…) o homem é angústia”.

Apesar de ser um filósofo e não um psicanalista, as ideias de Jean-Paul Sartre se aproximam dos conceitos psicanalíticos, principalmente em relação à angústia e a responsabilidade diante das próprias ações. Ele também expõe que apesar de muitas pessoas não se mostrarem ansiosas ou angustiadas, elas estão apenas mascarando esses sentimentos, pois eles são inerentes da condição humana e cada vez mais acentuados nos dias atuais.

Na tentativa de preencher esse buraco que carregamos ao longo de toda a nossa vida, as pessoas realizam as mais variadas tentativas, onde desviam os olhos de si mesmas e de seu próprio sofrimento, na intenção de alcançar a tão idealizada felicidade plena, como se pudesse ser um estado de espírito permanente onde residiriam sem mais o aspecto doloroso da vida em sociedade.

Além dos próprios mecanismos de defesa do aparelho psíquico que conduzem a uma fuga dos conteúdos que não geram prazer, somos impulsionados pela máquina Estatal e o meio social a suprimir e não reconhecer nossos sofrimentos, sendo necessário continuar o ritmo produtivo, para garantir a moradia, a alimentação, o vestuário e o capital circulando.

Efeitos psicofísicos do sistema

Todavia, independentemente do tempo que leve, em algum momento a “máquina” humana começa a apresentar problemas psicofísicos, e esse desgaste pode levar a inúmeros desfechos: adoecimento por doenças somáticas e a manifestação de transtornos mentais como TAG (transtorno de ansiedade generalizada) e depressão, levando as pessoas até mesmo a cometerem suicídio.

O número de pessoas com diagnósticos de ansiedade vem crescendo exponencialmente, o que demonstra a pressão cada vez maior a que estão expostas. A ansiedade é um componente humano natural, presente desde os nossos ancestrais mais remotos, e que por isso possuiu uma importância significativa para a perpetuação da nossa espécie, e continua a possuir.

O medo, por exemplo, é uma das manifestações da ansiedade e tem como finalidade proteger-nos de possíveis situações de perigo. Nos dias atuais, a ansiedade tem se caracterizado de forma majoritariamente neurótica, ou seja, antecipando mentalmente situações de perigo que muitas vezes nem se concretizam, fazendo com que as pessoas estejam num estado de vigilância constante em qualquer hora e lugar: em casa, na rua, no trabalho, na universidade, em momentos de lazer, etc.

Diagnóstico e impacto da ansiedade neurótica

Ainda sobre a ansiedade, os sintomas característicos desse transtorno, de acordo com o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) são:

  • Inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele.
  • Fatigabilidade.
  • Dificuldade em concentrar-se ou sensações de “branco” na mente.
  • Irritabilidade.
  • Tensão muscular.
  • Perturbação do sono (dificuldade em conciliar ou manter o sono, ou sono insatisfatório e inquieto).

Ainda de acordo com o DSM-5, a ansiedade pode ser associada com três ou mais dos sintomas mencionados, e o que difere o TAG de uma ansiedade não patológica é que as preocupações são mais disseminadas, intensas e angustiantes, prejudicando uma ou mais áreas da vida do sujeito.

Além desses sintomas, o sujeito neurótico possui um conflito psíquico intenso e que demanda muita energia libidinal para ser mantida sob controle, de forma que, apesar das dificuldades que começam a se mostrar no cotidiano, mantém parcialmente uma vida normal – novamente, exigindo um custo elevado.

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Entre depressão e suicídio

Já em relação à depressão, apesar de possuir diferentes formas de manifestação, me deterei apenas em traçar os critérios diagnósticos do Transtorno Depressivo Maior. É necessário que cinco ou mais sintomas estejam presentes, dentre eles:

  • Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias.
  • Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia.
  • Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta.
  • Insônia ou hipersonia quase todos os dias.
  • Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias.
  • Fadiga ou perda de energia quase todos os dias.
  • Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada.
  • Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os dias.
  • Pensamentos recorrentes de morte.

A partir da exposição sobre os sintomas típicos de um estado depressivo recorrente, vale ressaltar que, parte dessas pessoas que são acometidas por pensamentos de morte podem nunca chegar a tentar suicídio – residindo apenas no campo do imaginário –, outras realizarem tentativas, que o próprio nome já indica que foi mal sucedida, enquanto há aquelas que realmente chegam no ato consumado.

Uma amiga minha, psicóloga formada, durante seu período de estágio em psicoterapia na faculdade, atendeu uma senhora com mais de 50 anos com humor deprimido. A paciente relatou que possuía ideações suicidas, mas que tinha a convicção de que nunca cometeria tal ato contra a própria integridade, reconhecendo que carecia inteiramente da coragem para tal.

Devemos lembrar que o humano é um ser biopsicossocial (biológico, psicológico e social), sendo assim, as causas de um adoecimento são sempre multifatoriais. Logo, uma pessoa com depressão pode ter desenvolvido por alguma predisposição genética e o impacto do ambiente em que está inserida.

Ansiedade neurótica e crítica ao capitalismo

Levando a temática da depressão e suicídio de encontro ao modo de vida no sistema capitalista, irei novamente resgatar Marx (1846) e suas ideias difundidas no livro/artigo “Sobre o suicídio”.

Logo no início do artigo, Marx gera uma reflexão ao relatar que não são apenas os escritores propriamente socialistas que expõem e criticam duramente as imposições cruéis perpetradas nas diferentes camadas da sociedade, mas escritores de todas as esferas da literatura – como romancistas, por exemplo.

Em suma, deve-se entender que não é preciso ser um socialista para compreender a brutalidade ao nosso redor e criticar a ordem estabelecida. Além dos aspectos psicológicos – como um Superego que pune a si mesmo ao perceber que não está alcançando os ideais irreais colocados como meta –, o gerenciamento econômico injusto do capitalismo também induz as pessoas a recorrer ao suicídio como última alternativa para se livrarem do sofrimento.

Salários baixos, condições insalubres de trabalho, moradia indigna, entrar em situação de rua, desemprego, são algumas das características desumanas presentes na nossa sociedade e que ataca as mais diversas origens sociais – mas principalmente os pobres trabalhadores, que são a maioria.

Importante enfatizar também que essas opressões podem ser ainda mais esmagadoras para os negros, LGBTs e mulheres. Apesar disso, no artigo referido, Marx evidencia como todas as classes estão sujeitas a esse sentimento insidioso, bem como os ricos ociosos também podem ser acometidos por um sofrimento que os levem a pensar em suicídio. “(…) Vê-se que, na ausência de algo melhor, o suicídio é o último recurso contra os males da vida privada”.

Caminhos de enfrentamento e elaboração

Diante da impossibilidade de erradicar completamente a ansiedade e a angústia, torna-se fundamental compreender seus mecanismos e buscar formas de lidar com eles. Nesse contexto, a psicanálise surge como uma abordagem que aprofunda nossa compreensão sobre os conflitos internos que influenciam nosso sofrimento.

Além disso, estratégias complementares, como a terapia (psicanalítica ou não), praticar atividades físicas, uma alimentação equilibrada e o engajamento em movimentos sociais, podem contribuir para uma relação mais saudável com esses sentimentos, promovendo bem-estar para o sujeito em nível individual e também o coletivo.

Com a consolidação da psicanálise e o abandono da hipnose como método terapêutico, Freud introduz a regra fundamental da associação livre – técnica na qual o paciente verbaliza tudo o que lhe vem à cabeça (consciência), por mais embaraçoso, doloroso ou insignificante que pareça.

Através disso, ele descobriu o mecanismo de defesa da repressão, em que conteúdos traumáticos e aversivos são afastados do consciente e retidos no inconsciente, como forma de amenizar o sofrimento psíquico do sujeito, mas tendem a reaparecer de forma indireta através de sintomas diversos.

Um dos pontos importantes também descobertos pelo pai da psicanálise, foi a importância e necessidade de reconhecer o verdadeiro aspecto do que nos causa sofrimento, aceitando e enfrentando o problema de frente.

Em “Recordar, repetir e elaborar”, Freud (1914) explica que o início do tratamento leva o neurótico a mudar a forma de se relacionar com sua própria doença (sintoma), que ela não deve mais ser vista como algo banal e desprezível, mas um digno adversário, do qual poderá extrair lições valiosas.

Bem assim é com relação às diferentes opressões perpetradas pelo Estado em nossa sociedade. Precisamos reconhecer e lutar por nossos direitos inalienáveis, buscando uma sociedade mais justa e com qualidade de vida para todos.

João Victor da Silva Ventura @joaopsicanalista1900 – 11967257499 – Psicólogo graduado e pretendo utilizar a psicanálise como minha abordagem, assim como usei nos atendimentos que realizei em estágios.

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