Entenda como os conceitos iniciais da psicopatologia se aplicam às diferentes classificações nas ciências Psi.

Ciências Psi e Classificações Nosológicas: Fundamentos para a Análise Psicopatológica

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Neste artigo, exploramos as ciências Psi a partir de suas classificações nosológicas e dos principais conceitos e definições preliminares da psicopatologia. A proposta é esclarecer como essas bases conceituais estruturam o diagnóstico, o prognóstico e a compreensão clínica dos transtornos mentais em diferentes abordagens, incluindo a Psiquiatria, a Psicologia e a Psicanálise.

Em conclusão, no fecho, vamos ofertar uma resposta à seguinte indagação: “Os conceitos e definições iniciais preliminares da Psicopatologia podem ser empregados em ambas as categorias nosológicas de forma universal?” A proposta do artigo tem como escopo superar e vencer essa dúvida que ainda paira entre muitos operadores das ‘ciências Psi’ (Psiquiatria, Psicologia, Psicanálise e Psicoterapias).

Reflexões iniciais sobre as ciências Psi

A proposta do presente artigo de opinião tem seu escopo abordar e explicar os conceitos e definições preliminares e iniciais da Psicopatologia.

O manejo equivocado desses conceitos e definições pode comprometer todo um trabalho erguido pelos operadores das ‘Ciências Psi’, assim denominados os operadores da Psiquiatria, da Psicologia, da Psicanálise e das demais Psicoterapias.

São usados como instrumentos no trabalho prospecção dos achados na anamnese e formação de diagnósticos e prognósticos. Para tanto, selecionamos os tópicos para exame:

  • O que é a Psicopatologia?;
  • Quantas categorias nosológicas temos nas ciências Psi?;
  • Os sintomas, os sinais e os traços;
  • A disfunção, distúrbio, transtorno e a síndrome;
  • Crise/Ataque, Reação Vivencial, Fase, Surto e Episódios.

Nosso primeiro passo será no sentido de entender o que é afinal a Psicopatologia? No fecho, em conclusão, do artigo de opinião, vamos ofertar uma resposta à problematização que foi apresentada para análise.

O que é a Psicopatologia?

Não existe a menor possibilidade da compreensão da Psicopatologia sem o entendimento dos conceitos e definições preliminares iniciais que são muito importantes.

Temos também que entender a diferença entre conceito e definição.

A Psicopatologia é o estudo científico dos transtornos mentais e do comportamento denominado de ‘anormal’, do homem médio neurotípico em sociedade, onde são investigadas as causas, manifestações, características, processos, conceitos das diferentes condições psicológicas que causam sofrimento ou um prejuízo pessoal, funcional, estrutural e coletivo.

Este é o objeto da Psicopatologia.

Precisamos compreender o que é doença mental (transtornos e demais estruturas), os sintomas, os sinais, os traços, os episódios e crises e seus efeitos na vida humana e social.

Muito importante salientar que os conceitos e definições têm aplicação não só na Psicopatologia, mas na Psicanálise, na Psiquiatria, na Psicologia, em Neurociências, na Biomedicina, na própria Medicina, em áreas especializadas da Medicina, na Sociologia, na Filosofia, na Pedagogia, inclusive na Linguística e na Antropologia.

Reflexões sobre os conceitos e definições preliminares

Por essa ótica, começamos então a perceber e entender que as definições e conceitos são emprestadas de uma ciência para outra, em vários formatos de interfaces. Os termos diagnóstico e prognóstico, exemplificando, não são exclusivos da Medicina, pois têm uma aplicação muito ampla e diversificada que é chamada de interfaces múltiplas.

As interfaces têm seus formatos possíveis que podem ser classificadas em inter, pluri, multi, trans, poli, meta e ecodisciplinares. Cada um desses tipos de interface tem suas peculiaridades e aplicação. A mais recente, em face do princípio da sustentabilidade, é a ecodisciplinariedade.

Ainda, precisamos frisar que existe a diferença entre conceito e definição.

O conceito é mais focal, transmite a ideia de concepção, do latim ‘conceptus’, que significa conter algo e formar dentro de si. O conceito é algo que produz uma interpretação possível e completa sobre algo. Podemos citar, exemplificando, o conceito de casa, local que se habita.

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O conceito cria uma ideia que responde a uma indagação ainda que de forma temporária. O modo, a resolução de um problema, cria uma ideia que responda à questão, ainda que de forma temporária através de conceitos.

definição nada mais é do que a explicação do significado, de forma mais completa, mais clara e possível, por isso temos a definição como algo mais extensivo, amplo.

A definição tenta evitar ao máximo a ambiguidade, gerando maior certeza. A definição pode ser extensiva e intensiva. Extensiva quando tenta explicar o todo ao máximo, para firmar bem o sentido e, intensiva, quando ela chega ao significado essencial do objeto em questão.

A definição delimita o sentido do que está em análise. Isto é muito importante quando vamos manejar os conceitos psicopatológicos de sintoma, sinal, traço; as estruturas disfunção, distúrbio, transtorno, síndrome, entre outros termos.

Quantas categorias nosológicas temos nas ciências Psi?

O estudo da Psicopatologia só foi possível ser sistematizado depois que ficaram bem claras as categorias nosológicas que foram evoluindo.

Os conceitos e definições foram sendo moldados através da sua evolução e evidências constatadas com o uso dos conceitos preliminares. Porque sem entender bem os sintomas, sinais e traços não temos como entender as categorias nosológicas.

Nós possuímos, nos dias atuais, já sistematizadas duas amplas classificações nosológicas: a classificação psiquiátrica lavrada no DSM (Manual de Diagnósticos de Saúde Mental), da APA (Associação Americana de Psiquiatria), dos EUA, que encontra-se na versão DSM-5-TR (Termos Revisados), e no CID 11, Código Internacional das Doenças, da OMS/ONU, que vem substituindo o CID-10.

Ainda possuímos a classificação nosológica da Psicanálise que foi construída pela primeira geração dos psicanalistas e evoluiu através das demais gerações.

Existe uma classificação nosológica do Canadá, uma da China e a da Europa, que foram sendo esboçadas a partir do DSM da APA. Porém, muitos países da África, do Oriente Médio, da Oceania, da Ásia, da América Latina, como o Brasil, por exemplo, foram aderindo ao DSM e ao CID.

Quanto à classificação da nosologia da Psicanálise, ela foi sendo reforçada e muito adotada pela formação leiga, ou seja, por fora da academia e da titulação formal, em que pese atualmente muitos países ofertarem cursos de bacharel, pós-graduação, mestrados e doutorados e até PhD em Psicanálise ao lado da formação leiga.

Muito importante destacar ainda que, lendo e cruzando as informações das classificações nosológicas, vamos encontrar muitas semelhanças e diferenças sobre as estruturas denominadas de transtornos, disfunções, distúrbios, síndromes, notadamente em muitas regiões do planeta.

Evidente que essa interface passa pelos sintomas, sinais e traços, que vamos a seguir abordar.

Os sintomas, os sinais e os traços.

É muito relevante realizar um enfoque diferenciado da conceituação de sintomas, sinais e traços na compreensão das nosologias psicopatológicas já categorizadas ou classificadas.

Sintoma é uma manifestação da patologia (doença) e pode ser subjetivo ou objetivo. Objetivo é quando é passível de ser observado. Subjetivo é quando ele é sentido somente pela pessoa (sujeito), portanto, fora do alcance da observação pelo clínico ou operador das Ciências Psi.

Os sinais são manifestações de origem comportamental da patologia observados e percebidos pelo clínico. Exemplo disso são suor, o tremor, o choro, lágrimas, a ferida ou íngua, inchaço, rubor, a tosse, espirro, catarro, pressão, temperatura, enfim.

Traços se referem aos hábitos, às tendências e às predisposições de uma pessoa, como por exemplo, agressividade elevada, cuspir nos outros, sentar-se com braços cruzados emburrado, resistências, obstinação, teimosias — são traços.

Delimitados esses conceitos, temos que conhecer o que são estruturas denominadas de disfunção, distúrbios, transtornos, síndromes, entre outros termos.

A disfunção, o distúrbio, o transtorno e a síndrome.

Tanto a disfunção quanto o distúrbio, bem como o transtorno, são conceituados pelo grau de abrangência e nível de prejuízos que causam.

A disfunção é quando ocorreu uma alteração numa determinada função psíquica, uma única função. Nada mais do que isto. O distúrbio é quando ocorre uma alteração em mais de uma função psíquica, não sendo mais disfunção, já que a disfunção é só em uma função.

Por exemplo, se existe uma alteração tão somente no nível de consciência, é uma disfunção. Ocorrendo também na atenção, na afetividade, no pensamento, na orientação, no tempo e espaço, na linguagem, na sensopercepção, na memória, na vontade, no juízo de realidade, na personalidade e na inteligência, é um distúrbio porque envolve várias funções.

O transtorno é quando ocorrem alterações que englobam um grande conjunto psicopatológico de manifestações por sintomas, sinais e traços que passam efetivamente a gerar prejuízo na vida da pessoa em diversas áreas, sendo uma abrangência muito maior que a disfunção ou distúrbio, e se instaura o sofrimento contínuo, que a pessoa passa a explicitar.

Na disfunção e no distúrbio, a pessoa pode conviver de forma serena e tentar uma saída, mas quando ocorre o transtorno — que seria um terceiro estágio estrutural — não tem como a pessoa sair da situação sozinha, ela vai precisar de ajuda especializada.

Isto não significa que já em nível de disfunção e distúrbio não se recorra à ajuda especializada. Porém, a pessoa pode vivenciar um quadro psicológico de disfunção e até de distúrbios e superar muito bem com disciplina pessoal, o que já não é possível quando for um transtorno, porque já está instaurado um prejuízo funcional e estrutural com os sofrimentos.

A síndrome é um conjunto de sintomas e sinais comportamentais que são agrupados numa frequência repetitiva e que ocorrem de forma constante e associados entre si.

Os termos desordem, desarranjo e perturbação têm sentido diverso, mas são aplicados como sinônimos. Desordem como sinônimo e até, em alguns países como o Brasil, na tradução de transtorno — transtorno ou desordem do jogo ou “disorder gaming”.

Desarranjo como sinônimo de desalinho, falta de arrumação, falta de organização pessoal, metas, objetivos de vida ou desordem de organização pessoal. E perturbação como sinônimo de distúrbio.

Geralmente, quando é descrito um quadro de desarranjo e perturbação, a pessoa é considerada confusa e, dependendo do contexto, em disfunção ou distúrbio.

Crise/ataque, Reação Vivencial, Fase, Surto e Episódio.

Estes termos foram aos poucos sendo usados de forma dispersa e desmembrados entre si pelos operadores das ‘Ciências Psi’. Porém, estão equivocados no emprego meramente isolado, porque eles fazem parte de uma estrutura — embora não linear — e servem como balizamento de uma dada situação ou quadro patológico.

Eles são etapas das manifestações das estruturas que se apresentam, sejam elas transtornos, disfunções, distúrbios ou síndromes.

Essas estruturas — disfunções, distúrbios, transtornos e síndromes — possuem cinco etapas:

  1. crise/ataque,
  2. reação vivencial,
  3. fase,
  4. surto e
  5. episódio,

E integram parte do ciclo, curso ou marcha dessas estruturas, que podem ter ainda outras fases:

  1. remissão,
  2. recuperação,
  3. recaída e
  4. recorrência.

A primeira etapa é a crise ou ataque, quando surgem de forma rápida e inesperada os sintomas, sinais e traços. A duração pode ser relativa: de minutos, horas e dias até meses e, em alguns casos, anos.

A reação vivencial é o comportamento da estrutura verificada, que pode ser uma mera disfunção, um distúrbio, uma síndrome ou mesmo o transtorno.

Fase é o momento vivido, como depressiva, maníaca ou de oscilação de humores. A pessoa volta ao estado normal, mas pode retornar à fase de novo. Pode ocorrer a oscilação entre normal e alteração com ou sem sintomas, sinais e traços.

O surto ocorre com a ruptura do estado mental de forma repentina, com ou sem sintomas e sinais, mas geralmente com traços fortes.

O episódio é a quinta etapa, que engloba um leque maior de manifestações. Pode permanecer por dias, semanas, meses. Importante destacar que são etapas não lineares. A pessoa pode ter um surto sem crise, ou uma fase sem demonstrar reação vivencial. Isso pode caracterizar uma desordem ou desarranjo de uma suposta linearidade com perturbações.

Remissão, recuperação, recaída e recorrência.

As quatro estruturas (disfunções, distúrbios, transtornos e síndromes) têm os quatro ciclos, curso ou marcha bem delimitados, que conforme mencionado podem ser:

  • remissão (cura),
  • recuperação, recaída e
  • recorrência.

Também não são lineares.

Entretanto, o transtorno é mais encorpado e agudo, além de crônico, e tem tendência de passar por todas essas etapas do ciclo ou marcha; o transtorno possui um ciclo mais completo.

Existe a remissão total e parcial. Geralmente, a remissão parcial está mais presente. Raros os casos de remissão total. E existe a remissão espontânea — também raros os casos.

No ciclo da recuperação, pode existir uma volta ao estado pré-mórbido, que alguns denominam volta ao “status quo ante”. Entretanto, importante destacar bem que a pessoa precisa possuir pelo menos um ano (12 meses) sem nenhuma recaída. Senão, não é o estado, ciclo ou marcha de recuperação.

Recaída e recorrência são o reaparecimento dos sintomas. A recaída é o retorno ao “status quo ante”, o retorno dos sintomas após a remissão declarada parcial. E recorrência é o desenvolvimento e manifestação de um novo episódio, após estar recuperado.

Importante salientar bem que precisa ser etapa do episódio. Senão, não é recorrência. A pessoa pode estar recuperada e ter uma crise, uma reação vivencial, uma fase ou até um surto — não é ainda recorrência. Precisa ter um episódio para ser recorrência.

Estes conceitos com suas definições vão auxiliar na anamnese e, evidentemente, na firmeza de diagnósticos e também no prognóstico.

Na análise da vida pregressa será importante os dados divisórios que cronologicamente fornecem o histórico da pessoa. Esses conceitos e definições são importantíssimos para futuros estudos de casos que vão integrar os anais da literatura psicopatológica e metanálises.

Conclusão

Face ao todo acima exposto, após análise dos tópicos selecionados para exame, com relação à problematização formulada — qual seja, “os conceitos e definições iniciais preliminares na Psicopatologia podem ser empregados em ambas as categorias nosológicas de forma universal?” — entendemos que sim.

Pois, conforme pesquisas e relatos, estudos de casos e metanálises, esses conceitos já vêm sendo aplicados em várias partes do planeta, tanto no mundo ocidental como oriental, que estão aderindo às classificações nosológicas, seja a da APA (DSM) quanto a da OMS (CID).

E, ainda, com relação à classificação nosológica da Psicanálise, em que pese a formação em muitos lugares ser leiga, está sendo adotada por muitos operadores. Vários continentes onde se estuda a Psicopatologia vêm aplicando esses conceitos e definições pelos operadores das Ciências Psi, que apresentam seus artigos que integram as literaturas diversificadas e são difundidos no tecido social.

Existe uma leve tendência universal de que as classificações nosológicas venham, paulatinamente, a se pacificar, alinhar, nivelar e harmonizar no futuro.

Edson Fernando Lima Oliveira é formado em Psicanálise, pós- graduado em Psicanálise. Concluindo PG em Psicopatologia.

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