Neste artigo, exploramos as relações tóxicas e seus impactos nos vínculos afetivos, a partir de uma leitura psicanalítica.
Analisamos como a compulsão à repetição, o desejo do outro e a violência simbólica se articulam na formação de vínculos que adoecem o sujeito, trazendo luz às bases inconscientes desses relacionamentos e às possibilidades de transformação a partir da escuta clínica.
Entendendo as relações tóxicas e os vínculos afetivos
As relações humanas, embora fontes de nutrição emocional e subjetivação, podem igualmente se tornar espaços de sofrimento, dominação e esvaziamento do sujeito.
O chamado “relacionamento tóxico” não é um conceito clínico formal, mas serve como uma nomeação popular para dinâmicas relacionais marcadas pela repetição de padrões destrutivos.
A psicanálise, com sua atenção aos processos inconscientes, oferece uma chave de leitura singular para compreender por que sujeitos se enredam em relações que os fazem adoecer.
Neste artigo, propomos uma abordagem psicanalítica — clássica e contemporânea — sobre as diferentes configurações dos vínculos tóxicos, seus fundamentos inconscientes e as implicações subjetivas de quem se vê aprisionado em relações de sofrimento.
Relações Tóxicas e o Inconsciente: Onde Tudo Começa
Freud nos lembra que o sujeito é estruturado em torno da falta e do desejo, e é na infância, no seio das relações com os primeiros objetos de amor (geralmente os pais ou cuidadores), que os alicerces da vida psíquica são lançados.
É nesse contexto que se configuram as primeiras marcas da alteridade, da lei e do interdito.
Relações tóxicas na vida adulta podem ser compreendidas como atualizações inconscientes de vínculos primários, muitas vezes ambivalentes ou traumáticos.
Conforme Lacan, “o amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”, apontando o fundo estrutural da incompletude que caracteriza a experiência amorosa.
Mas quando o desejo do outro se torna exigência, controle ou apagamento da subjetividade, a relação deixa de ser campo de encontro e se converte em território de alienação.
Tipologias das Relações Tóxicas: Uma Cartografia Psicanalítica
As dinâmicas destrutivas podem assumir formas diversas. Abaixo, traçamos uma leitura clínica e estrutural de diferentes tipos de vínculos tóxicos:
Vínculo Narcísico-Perverso
Este tipo de vínculo está ancorado na busca de manutenção do ideal de Eu.
O parceiro narcisista utiliza o outro como espelho — exige admiração, subordinação e idealização. A relação é verticalizada, marcada pela desqualificação constante e pelo esvaziamento do desejo do outro.
Relações Coodependentes
A coodependência, na psicanálise, pode ser lida como uma falha no processo de separação-individuação.
O sujeito se funde ao outro como uma tentativa de evitar o vazio ou a angústia de abandono. Há um jogo de completude impossível, onde o sujeito renuncia ao seu desejo para manter o amor do outro.
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Klein e Winnicott contribuem aqui com os conceitos de “posição esquizo-paranoide” e de “falso self”, mostrando como a criança pode aprender a se adaptar ao desejo do outro em detrimento da própria autenticidade.
Relacionamento Abusivo e o Gozo da Violência
No relacionamento abusivo, a violência (física, sexual ou psicológica) é não apenas ato, mas significante. Em termos lacanianos, há uma espécie de gozo (jouissance) do agressor em transgredir o limite do outro — há prazer na destruição.
Para a vítima, o ciclo de violência descrito por Lenore Walker (tensão, explosão e lua de mel) pode ser um circuito repetitivo do qual é difícil escapar, pois o superego se torna cúmplice da agressão, gerando culpa e inércia.
Manipulação e Gaslighting
A manipulação psíquica pode ser vista como uma forma de recalque ativo do outro: o parceiro manipula a percepção da realidade da vítima, distorce seus afetos e fragiliza sua autonomia. O “gaslighting” é um exemplo contemporâneo disso.
Lacan trata o discurso do mestre como um modo de captura subjetiva: o outro impõe um saber, um significante mestre, anulando a possibilidade de enunciação do sujeito.
Repetição e a Escolha Inconsciente do Sofrimento
Por que alguém permanece em uma relação que o destrói? A resposta, na psicanálise, não reside em explicações conscientes, mas na compulsão à repetição (Freud, 1920).
A repetição não visa à cura, mas à reinscrição de uma cena traumática originária — uma tentativa falha de dominá-la retrospectivamente.
A repetição de relações tóxicas revela a fixação a um objeto primário perdido, cuja ausência estruturante se tenta negar. Assim, a vítima do presente repete o lugar de objeto do passado, como se, ao reviver o trauma, pudesse finalmente controlá-lo.
Mas o trauma, como mostra Ferenczi, muitas vezes reaparece como um “assujeitamento masoquista”, e não como elaboração.
Consequências Psíquicas e Subjetivas
A vivência contínua de relações tóxicas pode deixar marcas profundas, como:
- Superego Sádico: Como em Freud e Lacan, o sujeito pode desenvolver uma instância punitiva interiorizada que reforça a culpa e a auto depreciação.
- Fusão com o Outro: Perda da capacidade de simbolizar, de diferenciar-se e de desejar.
- Depressão, Ansiedade e Dissociação: Estados de esgotamento psíquico devido à longa exposição à violência simbólica ou real.
- Rupturas no Laço Social: A toxicidade pode isolar o sujeito, levando à solidão, à desconfiança e à dificuldade de estabelecer vínculos futuros.
A Análise como Espaço de Desalienação
A psicanálise oferece um espaço de escuta em que o sujeito pode, pela palavra, simbolizar sua dor, reconhecer sua repetição e reposicionar-se frente ao desejo do outro.
A análise permite à pessoa sair da posição de objeto (do gozo alheio) e começar a se reconhecer como sujeito desejante.
Como diz Lacan, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, e só se revela no ato de fala. Romper com a lógica da repetição exige que o sujeito se escute de um lugar diferente — não mais como vítima ou objeto do outro, mas como autor de sua própria história.
Conclusão
Os relacionamentos tóxicos não são apenas relações ruins ou conflituosas: são dispositivos psíquicos de captura do desejo, onde o sofrimento se torna uma forma de laço.
A psicanálise, ao iluminar os fundamentos inconscientes dessas escolhas e repetições, possibilita a construção de um espaço interno mais livre, menos dominado pela compulsão e mais orientado pelo desejo e pela ética do sujeito.
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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista famíliar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]
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1 thoughts on “Relações Tóxicas e Vínculos Afetivos: A Repetição do Sofrimento sob a Lente da Psicanálise”
Artigo maravilhoso, parabéns!