A travessia do sujeito em Dante Alighieri revela o campo do gozo, a função paterna e o objeto de desejo sob escuta psicanalítica.

A Travessia do Sujeito na Obra de Dante Alighieri: Função Paterna, Desejo e Culpa

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Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da jornada de Dante na Divina Comédia, particularmente no Inferno, como travessia do sujeito frente à angústia, à castração e ao desejo. A topografia infernal é lida como metáfora do inconsciente, onde cada círculo representa um tipo de repetição sintomática.

Acompanhado por Virgílio, a figura de um superego que guia, mas também controla, Dante encarna o sujeito que precisa enfrentar suas imagens recalcadas para atravessar a própria fantasia. A escuta psicanalítica revela a Comédia como estrutura subjetiva: uma ética do desejo em luta com a culpa e com o horror do real.

O Inferno como campo do gozo

Dante inicia sua jornada “no meio do caminho da vida”, perdido em uma floresta escura. A cena é inaugural: o sujeito não sabe onde está, nem como chegou ali, ponto exato da entrada no inconsciente. A Divina Comédia, apesar de estruturada como teologia, é também e talvez, sobretudo, a narrativa de um sujeito em análise.

A descida ao Inferno não é punição, mas necessidade. Virgílio, guia racional, opera como função paterna que introduz Dante no campo da lei e do desejo. A escuta psicanalítica nos permite ler essa descida como a passagem pelo real não simbolizado, onde o sujeito encontra o que nele foi excluído, recalcado, inominado.

Repetição, culpa e gozo no inconsciente

A topologia do Inferno de Dante ecoa o inconsciente freudiano: estruturado, simbólico, mas habitado pelo que insiste como trauma. Cada círculo pune uma forma de gozo – luxúria, avareza, traição – mas essas punições revelam também o fascínio do sujeito por seus próprios excessos.

Freud, em Além do Princípio do Prazer, descreve a compulsão à repetição como retorno do recalcado; Dante, por sua vez, caminha entre figuras que vivem eternamente o mesmo ato, sem possibilidade de elaboração.

Mais do que moralidade, o Inferno expõe o circuito fechado do sintoma. Os pecadores não aprendem com o castigo – eles encenam, eternamente, a mesma cena. Lacan diria: estão presos na imagem, no gozo, no Imaginário que impede a travessia ao simbólico.

Função paterna e objeto de desejo

A presença de Virgílio é mais que orientação, é contenção. Ele representa o superego esclarecido, aquele que conhece os caminhos da linguagem, mas que não basta. Seu limite aparece quando é necessário ceder lugar a Beatriz.

Aqui, temos a transição do pai simbólico ao objeto de desejo. Beatriz, inacessível e idealizada, encarna o “objeto a” lacaniano – causa do desejo, mas também seu abismo.

Dante caminha entre essas duas figuras como quem tenta sustentar o desejo sem perder-se no gozo. Virgílio oferece a estrutura; Beatriz, o sentido. Mas nenhum dos dois resolve a angústia: a travessia é pessoal, intransferível, marcada pelo confronto com o que em Dante é puro vazio – o lugar do real.

Culpa e estrutura subjetiva

A Comédia não é sobre arrependimento, mas sobre estrutura. Os pecados de Dante não são atos específicos, mas inscrições em seu corpo subjetivo. Ele carrega a culpa como quem carrega um sintoma.

O olhar analítico descola o pecado da moral e o inscreve na cadeia do desejo: o sujeito não peca porque é mau, mas porque deseja – e não suporta esse desejo.

A culpa, nesse contexto, é o efeito da castração. Lacan nos lembra que é o desejo que causa angústia, não sua falta. Dante, ao reconhecer-se entre os pecadores, ensaia uma ética do sujeito dividido, que tenta sustentar o desejo sem negar a lei, sem recusar a falta.

A jornada de Dante pelo inconsciente

A Divina Comédia é a jornada de um sujeito pelo próprio inconsciente. O Inferno, longe de ser punição divina, é metáfora do campo do gozo: um lugar onde o sujeito confronta aquilo que nele insiste, mas que não se simboliza.

Virgílio e Beatriz são figuras da função paterna e do desejo, que orientam, mas não substituem o trabalho do sujeito com sua falta. Dante desce ao fundo não para se purificar, mas para tornar-se sujeito.

O Inferno, então, é menos o lugar dos outros do que a paisagem interna de quem ousa olhar para si.

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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.

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