Neste artigo, exploramos como a violência doméstica pode ser compreendida pela psicanálise a partir de seus fundamentos teóricos. Abordamos o papel da pulsão de morte, dos complexos inconscientes e do gozo perverso no comportamento do agressor, além das contribuições de Freud, Jung, Lacan e autoras como Marie-France Hirigoyen, Esther Perel e Vera Iaconelli. O objetivo é revelar como os mecanismos psíquicos estruturam a agressividade nas relações íntimas e por que o assédio moral muitas vezes passa despercebido, apesar de suas marcas profundas.
Este é o primeiro artigo da série “Alma Sequestrada”, que examina a violência doméstica sob diferentes prismas da psicanálise. Em quatro partes, vamos abordar desde os fundamentos teóricos até os caminhos de reconstrução psíquica para vítimas e sobreviventes.
A violência doméstica como fenômeno psíquico
A violência doméstica, especialmente quando culmina em feminicídio, é um fenômeno que ultrapassa os limites da criminologia e da sociologia. Ela é também uma expressão psíquica profunda, que pode ser compreendida à luz da psicanálise, ciência que escuta o inconsciente e revela os conflitos que operam por trás das ações humanas.
Pulsão de morte e repetição
Sigmund Freud, pai da psicanálise, introduziu o conceito de pulsão de morte (Thanatos) em oposição à pulsão de vida (Eros). Em seu texto “Além do Princípio do Prazer” (1920), Freud sugere que há uma tendência inconsciente à autodestruição e à destruição do outro.
No contexto da violência doméstica, essa pulsão se manifesta como sadismo, controle obsessivo e agressividade extrema. Freud também fala do compulsivo à repetição, onde o sujeito repete padrões traumáticos, muitas vezes herdados de sua própria história familiar.
Complexos inconscientes e projeções sombrias
Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica, aponta a uma leitura simbólica da violência. Para ele, o agressor é dominado pela sombra — os aspectos reprimidos e não integrados da personalidade. Quando essa sombra não é reconhecida, ela é projetada no outro, que se torna alvo da destruição.
Jung também fala dos complexos, núcleos emocionais inconscientes que podem dominar o comportamento. Um complexo de inferioridade, por exemplo, pode levar o agressor a tentar aniquilar o outro como forma de compensação.
Gozo perverso e fantasia de completude
Jacques Lacan aprofunda a teoria freudiana ao afirmar que o sujeito é estruturado pela linguagem e pela falta. O agressor, muitas vezes, não suporta a autonomia da vítima, pois ela representa uma ameaça à sua fantasia de completude.
O gozo (jouissance), conceito central em Lacan, é uma forma de prazer que ultrapassa o limite e se torna destrutiva. O gozo perverso do abusador se alimenta do sofrimento da vítima, e a violência se torna uma forma de reafirmar seu poder sobre ela.
Assédio moral e sofrimento silencioso
Marie-France Hirigoyen, psiquiatra e psicanalista francesa, no livro “Assédio Moral: A Violência Perversa no Cotidiano” (2000, Editora Bertrand Brasil), descreve como a violência psicológica pode ser tão devastadora quanto a física. Ela mostra como o agressor manipula, humilha e isola a vítima, criando um ambiente de terror silencioso.
Esther Perel, terapeuta belga, discute em sua obra “Casos e Casos” (2018, Editora Objetiva – Grupo Companhia das Letras), os efeitos da infidelidade e das relações tóxicas sob uma ótica terapêutica e cultural. Ela analisa como o poder, o controle, o silêncio e a manipulação emocional se manifestam em vínculos íntimos, elementos que também estão presentes em situações de assédio moral, especialmente nas relações conjugais e profissionais.
Embora o foco seja a traição, Perel revela como dinâmicas perversas podem se instalar em relações aparentemente funcionais, e como o sofrimento psíquico pode ser invisibilizado ou normalizado, onde o controle sobre o corpo e a mente do outro é uma forma de dominação que se disfarça de amor.
Cultura patriarcal e apagamento subjetivo
Vera Iaconelli, psicanalista brasileira, tem contribuído com reflexões sobre gênero e violência. Em suas entrevistas e textos, ela destaca como a cultura patriarcal legitima a violência contra a mulher e como a psicanálise pode ajudar a desconstruir esses padrões.
Em seu corajoso ensaio autobiográfico com viés psicanalítico Análise, Iaconelli expõe sua própria trajetória como analisanda e psicanalista, abordando:
- A violência doméstica vivida na infância, com um pai alcoólatra e agressivo
- A submissão da mãe, que representa o apagamento subjetivo feminino
- A lealdade familiar como forma de opressão, onde o desejo individual é sacrificado em nome da manutenção de valores herdados
- A implicação subjetiva no trauma, mostrando que a análise só começa quando o sujeito se inclui na própria história
Esses elementos são centrais na compreensão do assédio moral e da violência psicológica, especialmente em ambientes familiares e conjugais. A autora propõe que o sofrimento só pode ser elaborado quando é nomeado, implicado e transformado em narrativa, exatamente o que muitas vítimas de abuso precisam fazer para romper o ciclo.
“Mesmo que seja uma história de muita violência de fora, você só começa quando diz: ‘Tem algo meu aí’. O que eu fiz ali que ainda não consegui dar conta?”, pensamento profundamente psicanalítico: não se trata de culpabilizar a vítima, mas de resgatar sua posição de sujeito, capaz de elaborar, transformar e colocar limites.
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Na Parte 2 da série “Alma Sequestrada”, vamos aprofundar a noção de manipulação psicológica como um dos mecanismos centrais do sequestro psíquico, explorando como a violência simbólica se instala e silencia a subjetividade.
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Parte 2: Alma Sequestrada: Manipulação Psicológica e o Silenciamento da Vítima
Parte 3: Alma Sequestrada: Gozo Perverso e a Estrutura Psíquica do Agressor
Parte 4: Alma Sequestrada: Defesa Psíquica e a Reconstrução do Sujeito Violentado
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Este artigo foi baseado no artigo original: “A Alma Sequestrada: A Psicanálise da Violência (61 Socos em 36 Segundos, a Brutalidade que Fala por Si)” de Julieta Pedrosa, Analista em formação. Graduada em Arquitetura e Urbanismo/UFRJ. Pós-graduada em Análise e Avaliação de Projetos/FGV. Formada em Gemologia e CAD/CAM pelo GIA-Gemological Institute of America, com diversos cursos nacionais e internacionais na área da Joalheria. Designer de joias no Julie Joias Brasileiras Atelier (IG @juliejoiasbrasileirasatelier), produz também conteúdo diário sobre psicanálise e autoconhecimento no IG @analisandose_ Escritora, professora de História da Joalheria e de Gemologia. Livro: Pequenos Contos no Espelho, disponível na Amazon https://encurtador.com.br/uRZP5
