Neste artigo, exploramos a concepção freudiana de dotação filogenética e sua influência na formação do inconsciente. A análise aborda como conteúdos herdados ancestralmente moldam estruturas psíquicas profundas, incluindo o complexo de Édipo, a ansiedade de castração e mecanismos como a formação reativa, sempre mediados pelo princípio do prazer.
A estrutura do inconsciente em Freud
A vida mental para Freud é dividida no consciente e inconsciente, e o inconsciente é dividido com inconsciente e propriamente dito, e pré-consciente.
Considerando que o inconsciente contém todas as pulsões, instintos, urgências de nossas mentes, também são elas que motivam, na maior parte do tempo, as ações de cada indivíduo. Ou seja, embora o indivíduo esteja consciente de seus pensamentos, emoções ou desejos, esse mesmo não tem ciência do processo mental que regem tais sentimentos ou os determinam.
Por exemplo: “um homem se atrai por uma determinada mulher; esse mesmo sujeito não entende por completo as razões que o levaram a se atrair (as razões subjacentes a tal desejo, sentimento) e algumas atrações podem ser irracionais — o mesmo acontece com a mulher.” Afirmando que o inconsciente é o nível da mente não disponível à consciência, segundo Freud, o inconsciente só pode ser provado indiretamente.
No conceito freudiano, o significado dos sonhos, atos falhos e determinados tipos de esquecimentos — que ele nomeou de repressão — servem particularmente como fontes ricas de material inconsciente, como recordações infantis, as quais aparecem nos sonhos dos adultos, mesmo que esse indivíduo não tenha nenhuma lembrança consciente da experiência relatada no sonho.
Acesso ao consciente e repressão
Certamente o processo mental do inconsciente adentra a mente do consciente. É como um psiquismo que não para de funcionar. O material retido no inconsciente tenta o tempo todo ter acesso à mente consciente. Porém, tal material indesejado (traumas, desejos reprimidos, e outros) só consegue acessar o consciente após estar camuflado ou distorcido. Freud nomeia de Guardião o censurador entre o inconsciente e o pré-consciente. Dessa forma, impede que materiais indesejáveis alcancem a mente.
Analisar o material inconsciente para que entre no consciente é um processo em que o censurador precisa estar suficientemente disfarçado ou distorcido, enganando o pré-consciente e o Guardião, e acessando o consciente sem ameaças. Em sua maioria, são lembranças de desejos reprimidos sexuais ou agressivos intensos que resultaram de comportamentos infantis punidos ou interditados.
Sabe-se que ambos são causadores de ansiedade e, assim, dolorosos. Tal ansiedade resulta em repressão, e a força dessas experiências punitivas ou interditadas ao nível inconsciente da mente se subtrai das lembranças como forma de defesa psíquica da ansiedade que as gerou.
O papel do Guardião e os desejos reprimidos
Segundo Freud, nem todos os processos inconscientes resultam da repressão de experiências infantis. Uma parte tem ancestralidade e foi repassada ao indivíduo ao longo de suas gerações e repetições. Esse material, Freud denomina de dotação filogenética, um conceito similar ao de inconsciente coletivo da psicologia analítica de Jung. Para Freud, essa experiência analítica está na base do complexo de Édipo e da ansiedade de castração.
Necessariamente, o inconsciente não é sinônimo de inatividade ou dormência, já que a força que orbita o inconsciente luta continuamente para se tornar consciente. Muitas vezes consegue, embora assim que acessado, os conteúdos já estejam suficientemente distorcidos (ou seja, não originais).
As ideias inconscientes podem motivar o indivíduo, sendo muito comum, por exemplo, que um filho que sente hostilidade pelo pai, comece a gerar o oposto: o mesmo exibe um afeto exagerado. Esse disfarce proporciona uma ansiedade excessiva a esse filho. Ao disfarçar a hostilidade em afeição exagerada, a mente inconsciente motiva a expressão da hostilidade de forma indireta — através do amor e bajulação.
Percebe-se que o disfarce do inconsciente engana seu portador ou censurador e acessa de maneira distorcida o consciente, assumindo forma oposta ao sentimento original. Isso ocorre quase sempre de maneira exagerada ou exibicionista. Esse processo é chamado de formação reativa, um recurso psíquico do mecanismo de defesa.
Formação reativa e defesa psíquica
O id é uma região completamente inacessível do consciente, localizada no núcleo do cérebro. O termo “id” significa “isso”. É um componente não dominado da personalidade e, o tempo inteiro, o id busca reduzir as tensões através das necessidades básicas, pois sempre buscará o prazer.
Descrever o id é como descrever um recém-nascido: sua personificação é livre das restrições do ego e do superego. Um bebê busca a satisfação de suas necessidades sem considerar o que é possível ou adequado. Por exemplo: ao sentir fome, não importa o tempo ou o lugar — o que importa é saciar-se. E também não considera o objeto a sugar, uma vez que a sucção, via seios ou mamadeira, satisfaz sem considerar o valor nutricional do leite.
O id não tem contato com a realidade; com isso, simplesmente deseja satisfazer o desejo pulsional. Levando em consideração que o id não tem contato com a realidade, afirma-se que ele não se altera ao longo da vida do indivíduo, tampouco amadurece com as experiências.
O id é irrealista e busca apenas o prazer ilógico, podendo sustentar ideias incompatíveis. Por exemplo: uma pessoa sente um amor (consciente) por outra, todavia nutre por essa mesma um desejo (inconsciente) de destruir ou matar tal pessoa. Um sentimento oposto de amor/ódio, sentimentos que são possíveis, já que o id não tem moralidade.
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Ele não faz julgamento de valor ou discernimento entre o bem e o mal. A energia do id é a busca do prazer, sem considerar o que é adequado ou justo.
Dotação filogenética e ancestralidade psíquica
Descreve-se o id como a parte mais primitiva da psique. Ele se importa somente com a satisfação de necessidades básicas, sem qualquer preocupação com consequências. Pensa como um recém-nascido, totalmente no id, ainda não diferenciado do mundo externo.
O id contém pulsões como a de Eros (pulsão de vida) e a de Thanatos (pulsão de morte). Outra forma de se referir às pulsões seria a sexual ou agressiva. O id baseia-se no princípio do prazer. Sendo assim, ele anseia por satisfação imediata, sem vontade de esperar.
A característica do id é que ele não é influenciado (já que não tem contato com a realidade); é primitivo, caótico, inacessível à consciência, imutável, amoral, ilógico, desorganizado e cheio de energia. Tais energias se manifestam por meio das pulsões básicas e são descarregadas através da satisfação do princípio do prazer.
Segundo Freud, o id é o aspecto original da personalidade. Está enraizado na genética de cada indivíduo, logo que nascemos. Tendo em vista que o id não resulta de experiências sociais ou aprendizados, ele jamais se modifica. Os impulsos se mantêm em busca de satisfação através de processos primários do pensamento.
A dotação filogenética como origem psíquica e seu impacto na estrutura do eu
Portanto, tais processos são insuficientes para a sobrevivência do indivíduo — seriam fantasiosos, alucinados, desejos soltos. Por isso, a sobrevivência depende dos processos secundários do pensamento, os quais permitem o contato com o mundo externo e o organizam. Freud nomeia isso de ego — o “eu”.
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Artigo escrito por Elane Cristina De Araújo, Psicanalista Clínica e Infantil Instituto de Psicanálise Clínica Brasileiro – IPCB, exclusivamente para o Blog Psicanálise Clínica.
