Esquizoanálise o que é

O que é Esquizoanálise de Deleuze e Guattari

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O que é esquizoanálise e como a psicanálise se relaciona com ela? Neste artigo de Katia Vanessa Silvestri, você entenderá as relações entre psicologia, política e esquizoanálise, a partir do conceito de esquizoanálise de Deleuze e Guattari.

A Esquizoanálise: uma perspectiva crítica à Psicanalise freudiana

“Uma criança não brinca apenas de papai e mamãe” (Deleuze e Guattari).

A Psicanálise freudiana é reinventada pelo próprio Freud ao longo de suas experiências, estudos e pesquisas. Há, entretanto, dois pilares que se mantêm: a sexualidade infantil e o inconsciente.

É sobre o próprio pilar da Psicanálise que a Esquizoanálise faz uma crítica e apresenta uma proposta outra.

Oxigenar o pensamento é também compreender, numa revisão de Literatura, as tensões internas e externas acerca de um tema, teoria etc.

Ideias de Deleuze e Guattari

É com o entusiasmo de ideias sempre oxigenadas e da própria defesa psicanalítica que se deve estar intrigado contigo para estar intrigado com a Psicanálise que esse texto se justifica.

Nas obras Anti-Édipo, Mil Platôs e Cinco proposições sobre Psicanálise, encontram-se as linhas mestras da Esquizoanálise, cujo objetivo não é resolver os problemas da Psicanálise freudiana, mas eliminar o discurso psicanalítico freudiano.

Dessa forma, três pontos são cruciais nessa empreitada:

  • a forma de ser neurótico,
  • o capitalismo e o
  • complexo de Édipo.

O inconsciente e a Esquizoanálise

Num silogismo, dizem Deleuze e Guattari:

a família é estruturada pelo capitalismo. O inconsciente é estruturado pela família. Logo, o inconsciente é estruturado pelo capitalismo. Nesse sentido, se há uma dinâmica do psiquismo, o mais primordial em nós é adquirido e estruturado pelo social, o capitalismo”.

Freud já dizia do processo primário e que as tópicas são como uma útil ficção visto que inconsciente, pré-consciente e consciente (ICs, PCs e Cs) não podem ser pensados como lugares separados, distintos.

Porém, a crítica da Esquizoanálise é que mesmo o inconsciente é uma máquina produzida pelas relações sócio-capitalistas. Eis que no lugar de um inconsciente que é falta, Deleuze e Guattari propõem um inconsciente usina, usina de desejos.

O complexo de Édipo na perpsectiva esquizoanalítica

Na linha desse raciocínio, o capitalismo como o que impede, limita, controla e busca ordenar os desejos a favor de seus interesses executa a função de reprimir todo o desejo livre, não porque é incestuoso e agressivo o complexo de Édipo, mas porque todo desejo é perigo à manutenção do capitalismo.

Mais precisamente, é o capitalismo que aprisiona o desejo.

O que se lê é a desconstrução da lógica familiar, do triângulo edipiano (pai, mãe, filho), para uma defesa da sociedade capitalista como o movimento inicial de constituição edipiana.

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    Com efeito, o que o capitalismo faz é reprimir desde a infância os desejos e maquinar o sujeito neurótico. O neurótico é o infeliz, porque incapaz de criar, porque amedrontado, envergonhado.

    O que significa Esquizoanálise? Qual o seu papel?

    Desneurotizar os indivíduos é uma das tarefas a que se propõe a Esquizoanálise.

    Nesse contexto, a figura do esquizofrênico se revela; este é o indivíduo que se recusa a ser neurótico, ou seja, se recusa ao modelo neurótico de ser.

    Em linhas gerais, pode-se dizer que o neurótico quer ser amado, o tempo todo necessita – dada a perspectiva do inconsciente como sendo o desejo da falta – que se prove o amor por ele e, nessa sofrência, a Psicanálise freudiana “ensina” que se pode sofrer de outras formas.

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    A crítica esquizoanalítica é: por que ser o indivíduo da falta e não o indivíduo criador de desejos que, em vez de interpretar, experimente, se coloque em movimento de experimentação? Em outras palavras, em vez de sentir o desejo como a falta, criar relações e novos afetos; viver o desejo para além da interpretação.

    A proposta da teoria esquizoanalítica

    Por meio de novas relações sociais a maquinaria toda pode ser reinventada, isto é, levar ao fim as relações neuróticas mediante relações de intensidade da potência, o que requer viver o desejo.

    Nota-se que não se nega a existência do complexo de Édipo, mas o desejo de parar de fabricá-lo e, para tanto, o processo esquizofrênico do desejo é que deve ser retomado.

    Deleuze e Guattari afirmam que não é universal a forma de reprimir os desejos e que na sociedade ocidental a forma é edipianizando os indivíduos. Mais uma crítica se revela, pois, Édipo não é universal, uma estrutura universal como queria Freud, mas uma produção específica de inconsciente.

    Desejo e instinto na Esquizoanálise de Deleuze e Guattari

    E, num diálogo com Foucault, dizem Deleuze e Guattari que Édipo produz corpos dóceis, servidão. Os instintos não são perigosos como crê o neurótico.

    O desejo é interpretado como perigoso porque desafia a ordem dada. Mesmo se pequeno, o desejo é sempre libertador.

    É nesse sentido que Guattari diz em As três ecologias (2006) que a ecologia mental é não permitir que outra maquinaria (o capitalismo) se encarregue do movimento do desejo.

    “É lastimável ter de dizer coisas tão rudimentares: o desejo não ameaça a sociedade por ser desejo de fazer sexo com a mãe, mas por ser revolucionário” (Deleuze e Guattari, Anti-Édipo, p. 158).

    Quando se lê em Freud que todo reprimido tem que permanecer inconsciente e, lembrando que a repressão não é sinônimo de recalque,

    • repressão é consciente
    • enquanto o recalque é inconsciente

    A saída oferecida pela Psicanalise freudiana é tornar-se neurótico e, a neurose, não é universal e nem individual afinal quem sabe mais de Édipo, a criança ou os próprios pais? Por isso todo delírio é coletivo, afirmam Deleuze e Guattari. Todos as barreiras criadas contra o desejo, contra os prazeres instauram um mecanismo reverso, volta-se contra o próprio indivíduo.

    Diferenças entre Psicanálise e Esquizoanálise

    Por essa razão os filósofos franceses dizem que a Psicanálise não é alternativa. A Esquizoanálise objetiva desmoronar a matriz da infância da Psicanálise e do inconsciente como topos dos desejos reprimidos por serem vergonhosos, insuportáveis, terríveis.

    Uma defesa do desejo como força potência e criação se opõe ao mundo inteligível platônico que respira ainda nossos ares defendendo um belo e bem e uma Verdade em si.

    Os fantasmas de um mundo perfeito além do mundo imanente estão vivos e andam entre nós como neuróticos envergonhados por desejarem. Libertar o inconsciente do complexo de Édipo, da interpretação e das regras gramaticais, defender que os desejos nunca são demais é a alternativa de acordo com Deleuze e Guattari.

    O modo normal de ser, como diz Freud, o homem normal aprende a esperar e a acomodar-se, é para a Esquizoanálise o modo infeliz de ser, é o Império de Édipo e a castração impostas pelo social.

    O desejo interpretado como o mal e falta não é uma invenção freudiana, está na História da Humanidade desde Platão e se mantém, dadas as diferenças históricas, justamente pelo motivo de ser a forma mais eficaz de dominação e opressão.

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    Em termos de segunda tópica freudiana, o Ego é, mediante a crítica aqui apresentada, um servo do capitalismo cuja essência é dar um “jeitinho”, enganar o desejo reduzindo-o, interpretando-o e mesmo castrando-o em nome de uma vivência social que, na realidade é a forma capitalista de relação social.

    Por isso a questão motivadora trazida pela Esquizoanálise: quando ou como a Psicanálise foi/é reacionária? Essa questão se responde de diferentes formas, com diferentes teorias e métodos.

    Este texto sobre o que é esquizoanálise e quais as divergências de Deleuze e Guattari em relação à psicanálise freudiana foi escrito exclusivamente para o blog do Curso de Formação em Psicanálise Clínica por Katia Vanessa Tarantini Silvestri ([email protected]), Psicanalista, Filósofa e Psicopedagoga. Mestre e Doutora em Linguística. Docente no ensino Superior e de Pós-graduação em MBA.

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