As três feridas narcísicas para Freud

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Em Psicanálise, o narcisismo é o amor exacerbado por si mesmo. O termo se inspira no mito de Narciso, que se apaixona por sua própria imagem refletida na água e se afoga.

O amor por si mesmo é um aspecto importante do ego. Sem um ego suficientemente fortalecido, não haveria autoestima e não distinguiríamos nossa psique em relação ao restante da natureza. É o exagero narcíciso que é o perigo, por aprisionar a pessoa em sua autoverdade, impedir a empatia e o aprendizado.

Quais são as três feridas narcísicas da humanidade?

Sigmund Freud menciona três feridas narcísicas da humanidade. Freud denominou assim três importantes momentos em que a ciência “destronou” o ser humano de uma autoimagem mais grandiosa e onipotente. A Psicanálise seria responsável pelo terceiro destes momentos.

Assim, o ser humano, embora seja o animal racional capaz de elaborar essas teorias, se vê como alguém não tão especial assim, sob certos aspectos.

Os escritos de Freud certamente mobilizaram a sociedade de sua época na direção da ruptura de paradigmas tão estruturados quanto o próprio contexto histórico vivido na transição entre os séculos XIX e XX. Pelas palavras do próprio autor, a Psicanálise constituíria a terceira ferida narcísica da humanidade.

Freud valoriza essas teorias (a terceira, inclusive, é a própria teoria psicanalítica) como fatos importantes para o conhecimento da própria condição humana.

Vejamos quais sejam essas feridas:

Primeira Ferida Narcísica

A partir dos estudos de Nicolau Copérnico e da astronomia moderna, pode-se ter o entendimento de que a Terra, e simbolicamente o homem, não é o centro do universo, como se acreditava até então.

Assim, fere-se o ego humano ao se constatar que o planeta em que o ser humano vive é parte de um Universo muito maior e multicentralizado em galáxias e sistemas.

primeira ferida narcísica nicolau copérnico

Segunda Ferida Narcísica

Segundo a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin, o ser humano é uma parte da evolução das espécies. A constituição física do ser humano se assemelha com a de outras espécies (por exemplo, em relação aos órgãos existentes e à simetria corporal), o que permitiu a Darwin a construção da teoria da existência de espécies em comum, há milhões de anos se desenvolvendo pela mutação e pela seleção natural.

Assim, o ego humano é ferido: embora seja a espécie que alcançou uma evolução racional, ainda assim o ser humano é uma espécie animal, com história, órgãos e mortalidade semelhantes a de outros animais.

segunda ferida narcísica darwin evolução

Terceira Ferida Narcísica

A terceira ferida narcísica, segundo Freud, é a própria Psicanálise. A partir da construção conceitual do inconsciente, Freud sugere que as ações do homem são fortemente influenciadas por uma instância que foge ao controle do entendimento racional e, que em si, apresentam características primitivas.

Ou seja, nossas pulsões e desejos são, em certa medida, animalescos, não racionais. Isso se pode ver inclusive pelo aspecto das ciências sociais: os atos humanos produtivos, culturais e ideológicos são transmitidos de uma geração a outra, de modo que a geração atual não tem uma consciência completa de escolha.

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    Na perspectiva da psicanálise, o ser humano não é um indivíduo (isto é, um não-dividido). O ser humano é dividido, sendo que não tem pleno controle de todos os seus afetos, medos, desejos, impulsos. Sua mente tem uma imensa porção não consciente, assim como um iceberg esconde a maior parte de si dentro da água.

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    E aquilo que mais valorizamos e que nos diferencia de outras espécies (a racionalidade) é apenas parte da mente humana, sendo que a grande parte de nossa mente não é acessível à razão.

    Isso de certa forma fere o ego humano, por valorizar uma parte não racional e não consciente da nossa mente.

    Esta análise de Freud sobre as feridas narcísicas da humanidade é um exemplo de sua psicologia social. Ou seja, é um exemplo da psicanálise aplicada à interpretação das relações interpessoais e sociais. Afinal, Freud aplica o conceito de narcisismo, costumeiramente usado para a caracterização de um indivíduo, para usá-lo também com uma ideia de consciência coletiva compartilhada historicamente.

     

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