Gozo da criação em Beethoven revela a vontade soberana e a pulsão de vida diante da surdez e do amor impossível.

Gozo da Criação: Beethoven entre a Vontade Soberana e a Surdez Radical

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Ludwig van Beethoven (1770–1827), figura incontornável da música ocidental, é muitas vezes retratado como um gênio indomável, que desafiou a ordem, a forma e a própria condição humana. A sua vida foi marcada por intensas contradições, surdez progressiva, conflitos familiares, idealizações amorosas irrealizadas e obsessão pela liberdade que ressoam em uma obra onde a força da pulsão vital se impõe sobre os limites do corpo. Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da obra e do sujeito Beethoven, compreendendo sua música como um espaço de elaboração do desejoda perda e do gozo da criação.

O Pai, o Nome e a Revolta Edípica

A biografia de Beethoven é atravessada por uma figura paterna opressiva: um pai alcoólatra, frustrado, que impôs ao filho a disciplina de um “gênio em formação”, à semelhança de Mozart. A relação conturbada com o pai, marcada pela violência e exigência, configura o que, na Psicanálise, pode ser compreendido como um trauma simbólico inaugural, um Édipo mal resolvido, cuja resolução se dará não pela identificação com a lei, mas pela revolta contra ela.

Beethoven, ao contrário de Mozart, não se submete: ele transcende. A sua música não obedece à norma, ela a ressignifica. A figura do pai morto, que Freud discute em “Totem e Tabu”, pode aqui ser simbolicamente representada pela morte do pai como instância repressora, para que o sujeito possa inscrever-se no campo do simbólico como criador autônomo. Beethoven não se curva ao Pai: ele o destrona para ocupar seu lugar.

A Surdez e o Gozo da Criação

A progressiva surdez de Beethoven, não é apenas uma tragédia biográfica, é um evento psíquico de magnitude simbólica. Ouvir é, na Psicanálise, uma função ligada ao outro, é escutar o desejo, o chamado, a alteridade. Tornar-se surdo é, portanto, perder essa escuta do outro, do mundo, da norma.

No entanto, Beethoven transforma essa castração real em força criativa. A sua surdez radicaliza a sua escuta interna, ele ouve de dentro. Em termos psicanalíticos, poderíamos dizer que a sua música passa a ser mediada não mais pelo registro do imaginário, mas pelo real da pulsão – o que está para além da simbolização, o que insiste e retorna.

A sublimação, nesse caso, atinge um nível extremo: Beethoven não transforma apenas desejo em arte, mas dor, frustração e ausência sensorial em formas sonoras de potência total. Ele não apenas resiste à perda, ele a utiliza como matéria-prima para o sublime.

Pulsão de Vida e Ética Musical

Ao contrário do romantismo melancólico de Chopin ou da tensão destrutiva do pintor Caravaggio, Beethoven se alinha àquilo que Lacan chamou de ética do desejo: um compromisso inabalável com sua verdade subjetiva, mesmo diante do sofrimento. A sua música, especialmente nas sinfonias, é a manifestação de uma pulsão de vida (Eros) que se recusa a ceder à pulsão de morte (Thanatos).

A Sinfonia nº 5, com sua célere abertura – três notas curtas e uma longa (ta-ta-ta-tã) – pode ser ouvida como a própria expressão do real golpeando a porta do simbólico. A música de Beethoven é escrita como enfrentamento, como transgressão da ordem clássica, como imposição de um sujeito que recusa ser apagado pelo trauma, pelo corpo doente, pela solidão.

O Amor Impossível e a Amada Imortal

Beethoven nunca se casou e teve uma vida amorosa profundamente frustrada. As suas cartas à chamada “Amada Imortal” (cuja identidade nunca foi confirmada) revelam um sujeito dividido entre o desejo intenso e a impossibilidade de realizá-lo. Esse outro desejado, mas inacessível, ocupa na Psicanálise o lugar do “objeto a” – aquilo que causa o desejo, mas nunca se deixa possuir.

A sua vida afetiva pode ser pensada como uma cena edípica não resolvida, em que o objeto do amor é constantemente idealizado, colocado em um lugar inatingível. Ao não consumar seus amores, Beethoven os eterniza na música, em sonatas apaixonadas, nos adágios longos e sofridos, no lirismo de seus quartetos de cordas.

Assim, o amor impossível torna-se sublimável, e o outro idealizado é perpetuado como fonte inesgotável de criação.

Conclusão

Beethoven, à luz da psicanálise, é o sujeito que transforma a castração em obra. A sua surdez, longe de ser um limite, torna-se campo fértil para uma escuta interior radical. A sua música é mais do que estética: é testemunho psíquico de uma luta entre desejo, perda e transcendência.

Ao recusar-se a ceder, ele escreve, com sons, aquilo que Lacan chamou de “não ceder quanto ao seu desejo”. Ele não apenas sublima – ele insiste, até o fim – na pulsão de criação. A sua obra nos lembra que a arte é um lugar onde o sujeito pode não apenas sobreviver ao trauma, mas transformá-lo em linguagem.

Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.

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