Richard Wagner (1813–1883) é, entre os compositores do século XIX, o que mais radicaliza a articulação entre música, drama e mito. As suas óperas não são apenas narrativas musicais: são construções simbólicas do inconsciente, verdadeiros mitos sonoros onde se inscreve o desejo humano em sua dimensão mais trágica. Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da obra de Wagner como encenação do desejo do objeto impossível, estruturado em torno da perda, da transgressão e do gozo.
Através de “Tristão e Isolda”, “O Anel do Nibelungo” e “Parsifal”, observamos a insistência de Wagner em tematizar o amor absoluto, a morte como única resolução do desejo e o sacrifício como caminho para o sagrado.
À luz da teoria freudiana e lacaniana, é possível compreender as suas obras como teatros do inconsciente, onde o sujeito wagneriano se constitui entre o simbólico do mito, o imaginário do amor e o real da morte.
O Desejo e o Objeto Impossível
Em “Tristão e Isolda”, o amor é a figura do impossível. O desejo não visa a união, mas a fusão total, além do princípio de realidade. Freud, em “Além do Princípio do Prazer”, descreve a pulsão de morte como o impulso que leva o sujeito a repetir, mesmo que em direção à destruição. A música de Wagner ecoa esse movimento: os acordes suspensos, a tonalidade adiada, o clímax nunca realizado, tudo aponta para uma tensão entre o desejo e a sua não realização.
Lacan nomeia esse objeto inatingível de “objeto a”: aquilo que causa o desejo, mas que, por estrutura, está perdido. Isolda, para Tristão, é menos uma mulher do que a encarnação do absoluto.
O amor não é para ser vivido, mas para ser cantado, desejado e, finalmente, sacrificado. A resolução só se dá na morte: o “Liebestod” é o momento em que a linguagem cede lugar ao real.
A Música Como Real do Inconsciente
Se o inconsciente é estruturado como uma linguagem (Lacan), Wagner parece operar na borda dessa estrutura. A sua música suspende a tonalidade, desestabiliza o tempo, cria ambiências que tocam o indizível. Em Tristão, o famoso “acorde de Tristão” inaugura a modernidade musical justamente por evocar o que não se resolve.
Essa musicalidade não é apenas inovadora: é sintoma. O sintoma, em Lacan, é aquilo que surge como marca de um gozo que escapa à simbolização. Wagner compõe como quem constrói sintomas: recorrências harmônicas que não se fecham, modulações que adiam a resolução, “leitmotivs” que retornam como traços do real.
A música de Wagner é o som do inconsciente insistindo, não para ser compreendido, mas para ser vivido no corpo do ouvinte. O tempo wagneriano é hipnótico, semelhante ao tempo do sonho: circular, repetitivo, erotizado.
Mito, Lei e Transgressão
A tetralogia “O Anel do Nibelungo” inscreve-se como um tratado mítico sobre o poder, a lei e a queda. Baseando-se nas mitologias germânicas, Wagner reencena, à sua maneira, o mito da origem da lei e da transgressão fundadora.
Freud, em “Totem e Tabu”, descreve a cena originária do assassinato do pai como fundadora da cultura e da moralidade. Em “O Anel”, vemos essa cena reencenada simbolicamente na luta entre Wotan, Siegmund, Siegfried e os deuses.
Wotan é o pai que cria a lei, mas é também quem a viola. Siegmund e Sieglinde são pais de Siegfried, filho do incesto e da revolta. A queda dos deuses ao final da tetralogia é a queda do “Nome-do-Pai”, a abertura para uma nova ordem. O mito wagneriano, portanto, se estrutura como tragédia edipiana ampliada: da origem ao colapso da lei, da fundação simbólica ao retorno do real.
O Sacrifício em Parsifal: Gozo como Redenção
Em “Parsifal”, sua última ópera, Wagner radicaliza o motivo do sagrado. A sexualidade é tematizada como ferida e redenção. O personagem Amfortas sofre de uma ferida incurável, causada pelo gozo não autorizado. Parsifal, figura do herói puro, atravessa o deserto da ignorância até tornar-se redentor – não por poder, mas por compaixão. Ele cura a ferida de Amfortas.
Lacan, em seu Seminário VII, fala do gozo como aquilo que excede o prazer e se aproxima do sagrado. O sacrifício, nesse contexto, é a única forma de lidar com o real do gozo. Parsifal não luta; ele observa, escuta, sofre. Ele se abstém – não cede ao desejo de Kundry – e é essa renúncia que o eleva.
A estética sonora de Parsifal é a do silêncio, da suspensão, da espera. A redenção é musical, não discursiva. A cura da ferida é uma cura pelo som: o retorno da música como possibilidade de simbolização do insuportável.
Conclusão
Richard Wagner encarna, em sua obra, o sujeito do desejo impossível. Os seus heróis não triunfam; amam, transgridem e morrem. A sua música não narra; ela delira, retarda, envolve. Psicanaliticamente, ele não apenas escreve óperas, mas dramatiza estruturas psíquicas: o desejo sem objeto, a transgressão da lei, a repetição do gozo, a redenção pela abstenção.
QUERO INFORMAÇÕES PARA ME INSCREVER NA FORMAÇÃO EM PSICANÁLISEErro: Formulário de contato não encontrado.
Wagner nos ensina que a arte não é ilustração do inconsciente, mas seu espaço privilegiado de inscrição. Cada acorde adiado, cada motivo recorrente, cada voz que se cala em meio ao excesso sonoro é testemunho de um sujeito que se perdeu no desejo, e que, ao invés de voltar, decidiu cantar.
—
Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
