Este artigo encerra a série “Violência e Psicanálise”, baseada na monografia de conclusão do curso de formação em Psicanálise Clínica da aluna Débora Fálico Quintana. Nesta última parte, vamos refletir sobre o papel da escuta analítica e dos grupos reflexivos como recursos clínicos e sociais capazes de transformar a violência em discurso simbólico e responsabilidade subjetiva.
Quando a escuta se torna necessidade clínica
Segundo Freud, existem algumas razões para que um sujeito procure análise, e geralmente é movido por um sofrimento psíquico que ele não consegue resolver sozinho.
Sintomas de angústias e conflitos internos, ou seja, um mal-estar que o sujeito vive e que compromete seu funcionamento afetivo, social ou corporal. A angústia, para Freud, é sinal de que há algo reprimido vindo à tona. Quando essa angústia é intensa e desorganiza a vida do sujeito, ela pode levá-lo a buscar a análise.
Desejo inconsciente de saber sobre si, de entender a causa de seus sofrimentos, suas escolhas e seu desejo.
Sintomas como fobias, obsessões, histerias, compulsões, também como expressão de um conflito inconsciente, que torna insuportável ou incompreensível faz com que o sujeito busque ajuda.
Sintomas de repetição onde o sujeito que se vê envolvido repetidamente em situações semelhantes e problemáticas (por exemplo, relacionamentos abusivos ou fracassos constantes) pode, em algum momento, questionar esse padrão e procurar entender os motivos.
Conflito entre o ID, EGO e SUPEREGO — desejos, realidade vinda com as exigências da vida social e seus valores. O choque entre essas instâncias pode gerar sofrimento e levar o sujeito à análise.
Grupos reflexivos como extensão da escuta analítica
Essas seriam algumas das razões internas e individuais para que o sujeito procure ajuda e reflita sobre sua vida e suas atitudes. Entretanto, Freud diz que não somos senhores em nossa própria casa. Isso significa que muitas de nossas atitudes, palavras, reações e até omissões estão atravessadas por desejos, impulsos e repetições inconscientes, que não reconhecemos como nossas.
Portanto, antes mesmo de entender os nossos conflitos internos, a violência pode estar dirigindo a nossa vida, nossos comportamentos e trazendo muito sofrimento.
Como, então, refletir sobre a violência sem nos reconhecermos como agente dela? A psicanálise aposta na fala como via de acesso ao inconsciente. O sujeito pode não saber que é violento, mas ao falar livremente, escutar e ser escutado, algo de sua verdade pode emergir.
Mas, ainda assim, ele precisaria procurar a análise e a escuta analítica. Quando isso não acontece, iniciativas de grupos reflexivos têm se mostrado ferramentas eficazes no enfrentamento da violência.
A construção de novos sentidos nos grupos reflexivos
Esses grupos reflexivos funcionam como espaços de diálogo, escuta e construção de novos valores e atitudes, promovendo conscientização e responsabilização dos participantes. Com a criação de um espaço seguro e acolhedor de escuta e diálogo, mesmo indivíduos que chegam negando seu comportamento agressivo, podem, ao ouvir relatos semelhantes e refletir sobre suas ações em grupo, começar a reconhecer padrões de violência que antes justificavam ou minimizavam, desconstruindo crenças e estereótipos e questionando normas culturais.
Um exemplo dessas iniciativas é o grupo Papo de Homem e o documentário “O Silêncio dos Homens”, que traz relatos da violência geracional entre os homens e o quanto ela impacta negativamente a saúde física e mental dos próprios homens e da sociedade.
Esse documentário reafirma a necessidade e a importância da fala e da escuta, pois, no relato daqueles homens, ficou claro o quanto os ajudaram a promover autoconhecimento, fortalecimento de vínculos, redução de sofrimento psíquico, desconstrução de estereótipos de gênero e prevenção de comportamentos violentos.
Com este artigo, concluímos a série “Violência e Psicanálise”. Ao longo das quatro partes, compreendemos como a escuta, a linguagem e a simbolização podem transformar a violência em fala, o sintoma em elaboração e o sofrimento em responsabilidade subjetiva.
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Esta série de artigos foi baseada no Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica da aluna Débora Fálico Quintana, originalmente apresentado sob o título: “Violência e Psicanálise: Como a linguagem pode influenciar no contexto da violência”.
Este artigo faz parte da série “Violência e Psicanálise”, publicada pelo blog Psicanálise Clínica:
Parte 1: Violência e Psicanálise: Pulsões, Emoções e o Funcionamento Psíquico
Parte 2: Violência e Psicanálise: Construção Social e a Violência como Sintoma
Parte 3: Violência e Psicanálise: da associação livre à simbolização psíquica
