Este artigo faz parte da série “Violência e Psicanálise”, baseada na monografia de conclusão do curso de formação em Psicanálise Clínica da aluna Débora Fálico Quintana. Ao longo dos próximos artigos, vamos explorar como a psicanálise compreende a violência como um fenômeno psíquico, cultural e simbólico. Nesta primeira parte, abordamos os fundamentos emocionais do sujeito, suas pulsões e o funcionamento psíquico como chave para entender as origens da agressividade.
As necessidades afetivas e a base emocional do sujeito
O psicanalista Emanuel Aragão, em seu vídeo no YouTube “Os sete afetos fundamentais”, explora a teoria das necessidades básicas da neurociência afetiva, focando especificamente no trabalho de Jaak Panksepp. Ele sugere que todos os mamíferos possuem um sistema de sete necessidades afetivas básicas que servem como matrizes emocionais, influenciando nosso desenvolvimento.
Essas necessidades incluem:
- busca — relacionada à curiosidade, motivação, exploração, novas experiências e recompensas. A necessidade da busca é considerada a mais crucial, interligando todas as outras;
- medo/fuga — nossa reação a perigos e ameaças;
- raiva/confronto — ligada à defesa de território, recursos e autoproteção;
- cuidado — a necessidade de proteger e cuidar dos outros;
- afeição — envolve atração física, desejo sexual e a busca por alívio de tensões;
- ser amado — relaciona-se à necessidade de vínculos e relacionamentos;
- dominação — a necessidade de superar e dominar, contribuindo para o aprendizado social e resolução de conflitos.
Todas essas necessidades são essenciais para a sobrevivência das espécies e estão interconectadas, buscando sempre a homeostase entre prazer e desprazer. Desequilíbrios geram tensões e angústias, levando à busca pela restauração do equilíbrio.
O Funcionamento Psíquico do desejo, prazer e o papel do princípio do prazer
A teoria freudiana do princípio do prazer propõe que o impulso básico do aparelho psíquico, particularmente no inconsciente (ID), é buscar gratificação imediata dos desejos, ignorando a realidade ou as consequências. Quando sentimos falta ou desejo, nosso psiquismo tenta aliviar essa tensão por meio do prazer, como por exemplo, comer se temos fome ou buscar conforto emocional.
Um exemplo claro é o de um bebê que chora porque sente fome e quer ser alimentado imediatamente. Não entende que, talvez, precise esperar. Isso é o princípio do prazer puro atuando. À medida que a criança cresce, ela vai aprendendo que nem tudo pode ser satisfeito na hora, e ela precisa lidar com a realidade, que pode ser a inacessibilidade da mãe/cuidador naquele momento.
Essa realidade não anula a necessidade de ser amamentado, mas ensina que vai precisar buscar meios mais adequados de satisfazer os desejos, e o choro pode não ser a ferramenta mais eficaz. Conforme a criança vai adquirindo a linguagem, busca usá-la para conseguir o que quer ou o que precisa.
Pulsão de vida e pulsão de morte em tensão constante
Freud também introduziu no desenvolvimento da sua teoria psicanalítica as pulsões de vida e pulsão de morte como forças opostas que regem o comportamento humano. A pulsão de vida visa preservar, criar e fortalecer laços, e a pulsão de morte, por outro lado, busca a destruição e o retorno ao estado inorgânico.
A pulsão de vida manifesta-se no amor e nas relações amorosas, na sexualidade, na criatividade destinada ao trabalho, às artes, ao lazer e na cooperação entre os indivíduos. Já a pulsão de morte pode manifestar-se na agressividade com o outro, na autodestruição com comportamentos de riscos, na repetição de traumas, comportamentos compulsivos, guerras e violência.
Segundo Freud, essas duas pulsões coexistem e entram em conflito dentro do psiquismo humano, influenciando nossos desejos e ações. A vida psíquica seria, então, uma espécie de campo de batalha entre essas duas forças, com o princípio do prazer associado à pulsão de vida, buscando preservar o bem-estar e evitar dor, mas também podendo se confundir com a pulsão de morte em comportamentos repetitivos e autodestrutivos, porém com o mesmo intuito: o de aliviar a dor e minimizar sofrimento.
Funcionamento psíquico entre prazer, repetição e destruição
Um exemplo clássico desse embate entre pulsão de vida e pulsão de morte é o livro/filme “O Clube da Luta”, onde o protagonista busca sentido (vida), mas encontra isso por meio da destruição, dor, violência (morte).
Baseado nessas teorias, podemos pensar o ser humano com uma parte agressiva/violenta inata. O desejo inconsciente de viver coexiste com o desejo, também inconsciente, de morrer, na tentativa de atender um desejo/necessidade de sobrevivência ou de acabar com um sofrimento.
Na próxima parte da série “Violência e Psicanálise”, vamos investigar como a violência se manifesta como sintoma — tanto no sujeito quanto na cultura — e de que forma a psicanálise pode nos ajudar a decifrar e tratar esse sofrimento que insiste em retornar como ato.
—
Esta série de artigos foi baseada no Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica da aluna Débora Fálico Quintana, originalmente apresentado sob o título: “Violência e Psicanálise: Como a linguagem pode influenciar no contexto da violência”.
Este artigo faz parte da série “Violência e Psicanálise”, publicada pelo blog Psicanálise Clínica:
QUERO INFORMAÇÕES PARA ME INSCREVER NA FORMAÇÃO EM PSICANÁLISEErro: Formulário de contato não encontrado.
Parte 2: Violência e Psicanálise: Construção Social e a Violência como Sintoma
Parte 3: Violência e Psicanálise: da associação livre à simbolização psíquica
Parte 4: Violência e Psicanálise: Escuta, Grupos Reflexivos e Possibilidades Clínicas
