Este artigo faz parte da série “Violência e Psicanálise”, baseada na monografia de conclusão do curso de formação em Psicanálise Clínica da aluna Débora Fálico Quintana. Ao longo desta série, estamos explorando como a violência pode ser compreendida, simbolizada e transformada a partir do olhar psicanalítico. Nesta segunda parte, o foco recai sobre a dimensão social da agressividade e o entendimento da violência como sintoma psíquico e cultural.
Agressividade e construção cultural da violência
O psicanalista Jurandir Freire Costa, no segundo capítulo do seu livro “Violência e Psicanálise”, intitulado “Por que a Violência? Por que a Paz?”, examina a teoria de vários autores, incluindo Freud, que tratam dessa temática. Ele aborda a diferença entre agressividade e violência, e a possibilidade de construção social da paz.
Ele propõe que a agressividade é um impulso primário e instintivo, e que por si só não é destrutivo, mas pode coexistir com ações pacíficas, podendo ser direcionado de forma positiva socialmente. Em contraste, a violência é vista como uma manifestação cultural da agressividade, caracterizada pela intenção de causar dano, seja de forma consciente ou inconsciente.
Costa também discute a violência como fenômeno cultural que serve para estabelecer normas, leis e direitos, surgindo quando conflitos não são resolvidos por meio do diálogo. Isso reflete a estrutura das relações sociais, a forma como as disputas são resolvidas e como a sociedade lida com conflitos e emoções.
Ele reconhece a possibilidade de transformar a violência em paz, enfatizando que, embora a agressividade seja uma característica humana, ela pode ser culturalmente convertida em violência ou em mecanismos de paz. Esses mecanismos incluem a internalização de normas sociais e a criação de instituições que incentivam a resolução pacífica de conflitos, destacando a importância desses fatores na formação do comportamento humano.
Violência como sintoma no sujeito e na cultura
Na psicanálise, um sintoma é considerado uma manifestação do inconsciente, servindo como uma forma indireta de comunicação para expressar conflitos internos que não puderam ser resolvidos de maneira consciente ou simbólica. Essa expressão se dá através de uma linguagem condensada e deslocada, que são mecanismos centrais do inconsciente.
Em outras palavras, o sintoma está dizendo algo que a pessoa não consegue verbalizar. A capacidade linguística do indivíduo ainda pode não estar suficientemente desenvolvida, ou ele pode não ter tido consciência para expressar algo reprimido ou não elaborado. O sintoma pode surgir em resposta a frustrações profundas, traumas, sentimentos de impotência ou humilhação, substituindo o diálogo e/ou a elaboração simbólica. Interpretar esses sintomas significa traduzir essa linguagem.
Jurandir Freire Costa amplia esse olhar, ao considerar a violência também como um sintoma social e cultural. Ele sugere que a sociedade, ao negar conflitos ou silenciar determinadas vozes, pode criar condições em que violência se torne a única maneira de ser ouvido, expondo a incapacidade das instituições em lidar com desigualdades, opressões e exclusões.
Com base nessas teorias, a violência pode ser vista como um sintoma, tanto no nível individual quanto coletivo. No nível individual ela pode ser reflexo de conflitos inconscientes, trauma, recalque e pulsão de morte. No nível social, a violência pode sinalizar injustiça, exclusão e falência do diálogo, revelando que algo não foi simbolizado, processado ou elaborado, e por isso retorna como ato, muitas vezes destrutivo.
As manifestações da violência como sintoma
A violência na forma de sintoma é um cenário visto em vários contextos sociais, como a família, a escola, as redes sociais, as prisões etc., e ela pode manifestar-se de diversas formas. O machismo e a misoginia são formas de violências praticadas pela sociedade. Essas violências nem sempre são apenas físicas, mas também surgem em formas de atitudes, discursos e estruturas sociais que causam dano psicológico, moral e social.
A violência física pode surgir como explosões de raiva culminando em quebra de objetos, envolvimento em brigas e pode expressar uma incapacidade simbólica em encontrar palavras para dar conta de dores ou trauma infantil, onde foi negligenciado, abusado ou abandonado, deixando marcas que voltam como impulsos agressivos.
A indisciplina escolar, que aparece em forma de violência, tanto física quanto verbal, entre alunos ou contra professores, pode revelar sofrimentos psíquicos graves. Um aluno que agride colegas pode estar dizendo que não se sente visto, que não sabe lidar com o que sente, e pedindo ajuda para que seja notado e escutado. As causas possíveis são ambientes familiares violentos ou negligentes, falta de estrutura emocional, impossibilidade de simbolizar frustrações.
A violência nos presídios não é só uma consequência de crimes, mas muitas vezes uma forma de sobrevivência psíquica em um sistema desumanizante. Pessoas presas que cometem atos extremos de violência podem estar reagindo à perda da identidade, ao trauma do encarceramento e à exclusão social anterior (marginalização, racismo, pobreza). O sistema penal raramente reconhece o sofrimento psíquico do sujeito, reforçando o sintoma com mais repressão e alimentando o ciclo de violência.
Violência simbólica, misoginia e trauma social
Nas redes sociais, a violência verbal, o linchamento virtual, os discursos de ódio podem ser vistos como atos-sintoma. Uma pessoa que ataca outras com agressividade extrema pode estar projetando sua frustração pessoal, sua sensação de impotência, seus desejos inconscientes reprimidos (ódio, inveja, medo). A ausência de mediação simbólica como a escuta, a empatia e o diálogo facilita a descarga pulsional crua, que Freud associaria ao governo do id, sem a contenção do ego.
A violência de gênero, como o machismo e a misoginia, que é reconhecida no Brasil com leis como a Lei Maria da Penha – nº 11.340, considera não só a violência física, mas também a violência psicológica, moral, sexual e patrimonial como atos machistas e misóginos contra mulheres. A estrutura machista acredita que o homem é superior à mulher, e essa crença subsidia inúmeros comportamentos violentos.
A desigualdade salarial no trabalho, a desvalorização da opinião feminina, o controle sobre o corpo e as decisões das mulheres, naturalizando comportamentos abusivos, são atitudes de uma cultura machista. O ódio ou desprezo direto contra mulheres com comentários ofensivos, assédio sexual, violência doméstica, e feminicídio são atitudes misóginas ainda muito enraizadas na nossa sociedade.
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Essas violências podem ser entendidas também como sintomas de repetições de padrões psíquicos inconscientes não elaborados. Os modelos parentais violentos e traumas não simbolizados podem ser gatilhos para a perpetuação desses comportamentos.
Em todos os casos, a violência como sintoma é um pedido de escuta, um grito sem palavras. Quando o sujeito encontra lugar para simbolizar o que sente (na família, na escola, na sociedade ou na análise), ele pode elaborar seus conflitos e transformar o ato em discurso.
No próximo artigo da série “Violência e Psicanálise”, vamos refletir sobre o papel da linguagem e da escuta analítica na transformação do sintoma violento em expressão simbólica.
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Esta série de artigos foi baseada no Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica da aluna Débora Fálico Quintana, originalmente apresentado sob o título: “Violência e Psicanálise: Como a linguagem pode influenciar no contexto da violência”.
Este artigo faz parte da série “Violência e Psicanálise”, publicada pelo blog Psicanálise Clínica:
Parte 1: Violência e Psicanálise: Pulsões, Emoções e o Funcionamento Psíquico
Parte 3: Violência e Psicanálise: da associação livre à simbolização psíquica
Parte 4: Violência e Psicanálise: Escuta, Grupos Reflexivos e Possibilidades Clínicas
