Este artigo faz parte da série “Violência e Psicanálise”, baseada na monografia de conclusão do curso de formação em Psicanálise Clínica da aluna Débora Fálico Quintana. Nesta terceira parte da série, analisamos como a linguagem e a escuta, especialmente por meio da associação livre, contribuem para a simbolização psíquica dos sintomas, permitindo que a violência deixe de ser ato para tornar-se discurso.
A linguagem como via de acesso ao inconsciente
Para Sigmund Freud, a linguagem é instrumento central do inconsciente e da cura psicanalítica. Ele descobriu que os sintomas neuróticos, os atos falhos, os sonhos e os lapsos de linguagem são formações do inconsciente, isto é, formas disfarçadas de expressão simbólica. Mesmo sem consciência, o sujeito fala. No seu livro “A Interpretação dos Sonhos”, 1900, ele diz que a linguagem é o meio privilegiado pelo qual o inconsciente se manifesta. A fala seria então o caminho da cura.
A técnica de Freud (associação livre) baseia-se no uso da linguagem como via de acesso ao inconsciente. O paciente é convidado a falar sem censura, pois, ao falar, revela o conteúdo reprimido, que se esconde em jogos de palavras, ambiguidades, silêncios. A linguagem simbólica do inconsciente tem uma lógica própria, com seus próprios códigos, e, falar sobre os sonhos por exemplo, pode mostrar como objetos, ações ou imagens representam palavras, desejos ou conteúdos recalcados.
A linguagem e a simbolização psíquica na formação do sujeito
O psicanalista Jacques Lacan desenvolveu uma teoria na qual a linguagem desempenha um papel fundamental na constituição do sujeito e na estruturação do inconsciente. O sujeito só surge após sua entrada no campo da linguagem. Não há sujeito sem linguagem. A linguagem o antecede, e ele está sempre falado, antes mesmo de falar. Ele nasce dentro de um mundo simbólico como a cultura, a família, o nome, a linguagem.
Nesse contexto teórico, podemos pensar que os nossos desejos, conflitos e traumas estão organizados, não em atos, mas em palavras, ainda que não sejam plenamente conscientes. Quando não conseguimos simbolizar, ou, quando a dor não vira palavra, ela vira sintoma.
Esse sintoma pode ser um ato agressivo e/ou violento, contra si ou contra o outro. Ou seja, a estratégia usada para atender à necessidade de equilíbrio entre prazer e desprazer (homeostase), ou a busca para atender a uma necessidade, nem sempre é saudável e benéfica para o próprio indivíduo, para o outro ou para a coletividade.
A clínica psicanalítica e a simbolização psíquica do sintoma
A psicanálise então, pode ser uma importante ferramenta contra a agressividade e a violência. Na clínica, o analista com sua escuta atenta, possibilita e convida o sujeito a dar nome ao que sente e a encontrar sentido para aquilo que antes só aparecia como angústia, explosão ou impulso. Nas palavras de Freud: “Onde o id estava, o ego deve advir.” (FREUD, 1997, p. 28) — ou seja, transformar o ato inconsciente em palavra consciente.
No Seminário 7: A Ética da Psicanálise, Lacan propõe que a ética analítica não é a de um bem suposto universal, mas sim a de não ceder sobre o próprio desejo. Isso implica que o sujeito, ao reconhecer e articular seu desejo, pode sair da posição de prazer destrutivo, ligado à violência, e entrar numa posição de responsabilidade.
Nesse sentido, quando o sujeito fala, ele tem a chance de reorganizar seu sofrimento e tirar o impulso da urgência da ação. No processo, ele pode se responsabilizar pelo que sente, transformar ódio, angústia, trauma e desejo de vingança, em fala, simbolização e narrativa. Um analisando violento pode, ao longo do tratamento, perceber de onde vem sua raiva, o que ela significa, e encontrar outras formas de colocá-la no mundo.
A linguagem como mediação simbólica na esfera social
No contexto social, por meio de políticas públicas, a premissa da psicanálise do sujeito que fala, e ao falar se transforma, também pode ser colocada em prática. Promover espaços de escuta e diálogo, rodas de conversa e mediações de conflitos nas escolas, empresas e centros comunitários, justiça restaurativa nos presídios são alternativas que levam o indivíduo a refletir, entender e questionar suas atitudes agressivas.
A linguagem se torna um instrumento de reconhecimento e reparação que evita o ciclo da violência. Ela é mais poderosa que a punição, pois dá a oportunidade de elaborar e ressignificar, e não apenas recalcar o sintoma. A fala integra e transforma o sujeito.
Na última parte da série “Violência e Psicanálise”, vamos refletir sobre os caminhos clínicos e coletivos para lidar com a violência: da escuta individual à construção de grupos reflexivos como ferramenta de transformação subjetiva e social.
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Esta série de artigos foi baseada no Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica da aluna Débora Fálico Quintana, originalmente apresentado sob o título: “Violência e Psicanálise: Como a linguagem pode influenciar no contexto da violência”.
Este artigo faz parte da série “Violência e Psicanálise”, publicada pelo blog Psicanálise Clínica:
Parte 1: Violência e Psicanálise: Pulsões, Emoções e o Funcionamento Psíquico
Parte 2: Violência e Psicanálise: Construção Social e a Violência como Sintoma
Parte 4: Violência e Psicanálise: Escuta, Grupos Reflexivos e Possibilidades Clínicas
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