A partir da obra de Tolstói, este artigo analisa o sujeito dividido, a ordem simbólica e a pulsão de morte na psicanálise.

Sujeito Dividido e Ordem Simbólica: Uma Leitura Psicanalítica de Tolstói

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Este artigo propõe uma interpretação psicanalítica da obra breve de Liev Tolstói, articulando os conceitos fundamentais das teorias de Freud e Lacan sujeito dividido, ordem simbólica, Nome-do-Pai, pulsão de morte e gozo mortífero se manifestam à estrutura narrativa e temática de contos como A Sonata Kreutzer, O Diabo, A Morte de Ivan Ilitch e Diário de um Louco.

Argumenta-se que essas narrativas expressam de forma literária os efeitos da inscrição do sujeito no campo do outro e a crise da simbolização do desejo na modernidade.

Ao investigar os impasses entre o supereu, o gozo e a interdição do desejo, este estudo busca demonstrar como os personagens tolstoianos figuram o drama de um sujeito dividido, cuja angústia decorre do confronto entre a ordem simbólica e a pulsão de morte.

Tolstói e a Verdade Inconsciente na Forma Breve

O conto, forma breve por excelência, opera como um corte que revela uma verdade inconsciente. Tolstói, em sua maturidade literária, abandona a grandiloquência épica e volta-se à anatomia moral e subjetiva de seus personagens — figuras cuja interioridade é marcada por rupturas, neuroses e confrontos éticos insolúveis.

A brevidade de seus contos condensa o drama do desejo e o impasse do gozo. Nesse contexto, os instrumentos teóricos da psicanálise, em especial as concepções de Freud sobre a pulsão e o supereu, e de Lacan sobre a estrutura simbólica do sujeito, oferecem meios privilegiados para uma escuta dessas narrativas como forma de expressão do inconsciente.

Nome-do-Pai e Desejo na Estrutura do Sujeito

A leitura lacaniana da estrutura do sujeito inscreve-se na lógica da linguagem: o sujeito é um efeito do significante. Em A Sonata Kreutzer, o protagonista, Pozdnyshev, encontra-se enredado num discurso sobre o amor e a sexualidade no qual a alteridade do outro (a mulher, a sociedade, o desejo) é experimentada como ameaça.

A ausência do Nome-do-Pai — entendido como o significante que articula a interdição do incesto e inaugura o campo simbólico da lei — resulta numa relação imaginária, paranoica com o desejo do outro.

Como Lacan formula: “é no campo do outro que o sujeito deve situar-se como faltante” (LACAN, 1958, p. 261). A recusa de Pozdnyshev em simbolizar a diferença sexual — percebida apenas como degradação moral ou tentação demoníaca — revela uma falha na inscrição do sujeito na ordem do desejo, substituída por um supereu feroz que exige pureza e castidade absolutas.

O assassinato da esposa não é, pois, apenas ciúmes: é o ato que visa anular o desejo enquanto tal.

Entre Pulsão de Morte e Gozo Sem Lei

Tolstói, em sua fase mais tardia, parece antecipar o conceito lacaniano de gozo como aquilo que excede o princípio do prazer. O gozo, em Lacan, não é sinônimo de prazer, mas de um sofrimento que se obtém na transgressão da lei, na repetição compulsiva da pulsão.

Em O Diabo, Eugene Irtenev representa o sujeito capturado entre dois registros do desejo: o desejo legítimo, socialmente reconhecido (o casamento com Liza), e o desejo abjeto, interditado (a relação sexual com Stepanida).

O retorno obsessivo da figura da camponesa configura a estrutura da repetição pulsional — um movimento circular, em que o sujeito não visa à satisfação, mas à reencenação de uma perda primária.

Para a existência de uma pulsão de morte, um além do prazer que conduz o sujeito à sua própria dissolução. Tolstói, em O Diabo, constrói a narrativa de forma tal que o desfecho trágico — a morte — aparece como uma liberação paradoxal: o único ponto onde a tensão entre desejo e interdição encontra um desfecho absoluto.

Angústia e Verdade no Encontro com a Morte

A Morte de Ivan Ilitch é talvez a mais explícita dramatização tolstoiana da angústia como afeto fundamental da existência. O personagem-título vive um sintoma: uma dor aparentemente orgânica que emerge como metáfora do descompasso entre sua vida e seu desejo.

Para Freud, a doença psicossomática pode ser lida como formação de compromisso entre o desejo inconsciente e a censura moral. Já para Lacan, a angústia não engana — ela emerge quando o sujeito é confrontado com a ausência de significante para aquilo que o constitui: o real.

Ivan Ilitch, diante da morte, percebe o colapso de sua imagem narcísica e a inconsistência do outro social (sua família, o aparato jurídico, os rituais médicos). Lacan sustenta que a morte não é um significante como os demais, mas o limite do significável.

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É na iminência desse limite que Ivan reencontra um fragmento de autenticidade, ou, em termos lacanianos, a confrontação com o real do gozo — não mais como prazer, mas como queda da fantasia.

O Sujeito Dividido e o Colapso do Simbólico

Em Diário de um Lunático, Tolstói antecipa o que Lacan desenvolverá em sua teoria das psicoses: quando o Nome-do-Pai é foracluído — ou seja, não inscrito no campo simbólico do sujeito — a linguagem perde sua função estruturante, e o sujeito experimenta a invasão do real.

O narrador do conto parece habitar uma realidade onde os significantes já não organizam o mundo: tudo é excessivo, alucinatório, solto. A fragmentação do eu não é resultado de um conflito moral, mas de um colapso da própria estrutura do desejo.

A loucura, aqui, não é metáfora nem falha moral, mas o efeito de uma estrutura sem amarração significante. O sujeito, privado da metáfora paterna, não pode articular o desejo apenas ser atravessado por ele em sua forma crua — o gozo sem lei.

Conclusão: Gozo Mortífero e Verdade Inconsciente

Tolstói, ao narrar a vida interior de seus personagens, nos oferece um retrato vívido das tensões fundamentais que constituem o sujeito moderno: o embate entre o desejo e a moral, a inadequação do eu diante das exigências do outro, e o colapso da linguagem diante do real da morte e da loucura.

Pela via psicanalítica, esses contos deixam de ser apenas dramas morais para se revelarem como cenários estruturais do inconsciente.

A interlocução com Freud e Lacan nos permite reconhecer que Tolstói não apenas escreve sobre personagens atormentados, mas dramatiza — com precisão clínica — os impasses estruturais do desejo humano. Em cada conto, encontramos o traço de uma verdade inconsciente: o sujeito é, inevitavelmente, dividido, e sua tentativa de escapar do desejo leva, frequentemente, ao gozo mortífero.

Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista famíliar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]
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