Mãe Narcisista e Mãe Super Protetora

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O presente artigo debate a temática da mãe narcista, mãe tóxica, mãe abusiva. Você vai entender o conceito de mãe suficientemente boa para Winnicott, a saber, aquela que cuida, demanda a responsabilidade do filho e não é uma mãe super protetora. O artigo aborda a temática das patologias disfarçadas, que podem estar na base de muitos relacionamentos mãe e filho.

Há um tabu na sociedade ocidental muito enraizado desde os primórdios cristãos. Tem como ideal de mãe Maria, Nossa Senhora, mãe de Jesus. A partir deste ideal, a sociedade tem santificado as mães, ou seja, elas se tornaram uma figura inatingível, isenta de cometer qualquer tipo de erro, injustiça ou maldade.

Já diz o mandamento cristão: temos que honrar pai e mãe. Sim, toda pessoa merece respeito, ainda mais aquele que nos criou. No entanto, crescemos com a ideia de que o amor de mãe é incondicional e de que toda as mães amam seus filhos. Como se o amor brotasse de repente assim que o bebê nasce.

Mas, será que é assim desta forma, será que este amor “brota” para todas as mães?

 

Amor de mãe para filho

O amor de mãe para filho é ainda uma incógnita para ciência, alguns falam dos hormônios que a mãe recebe durante a gravidez, a ocitocina, que faz com que ela adore a cria. No entanto, veremos a seguir que
este amor não vem para todas as mulheres.

Muitas vezes, a maternidade se torna um tormento que traz consequências nefastas para a relação mãe-filho.

As patologias mentais ou psicopatologias são de difícil detecção diagnóstica. São patologias disfarçadas pois muitas vezes essas pessoas com distúrbios de personalidade são funcionais em níveis sociais. Ou seja, elas atuam na sociedade sem causar nenhum problema, seus sintomas não afetam visivelmente sua rotina diária e seu convívio
em sociedade.

 

Mãe narcisista, mãe tóxica

No entanto, é dentro do lar, no seu círculo familiar que estas patologias disfarçadas perdem a máscara e se apresentam nocivas para aqueles que a rodeiam.

É o caso das mães narcisistas, mulheres que sofrem do distúrbio de personalidade narcisista.

Narcisismo é uma patologia que faz referência ao mito de Narciso. Um homem, que ao ver seu reflexo no
espelho d’água de um lago, enamora-se de si mesmo.

Uma das características mais marcantes das pessoas narcisistas é que elas não conseguem reconhecer o sentimento alheio, elas não sentem empatia, não conseguem se colocar no lugar do outro, pois elas apenas enxergam no outro o reflexo de si mesma.

É consenso geral entre os psicólogos, que uma mulher com distúrbio de personalidade vai se tornar uma mãe com este distúrbio e os filhos não estarão a salvo dos seus efeitos negativos.

 


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Amor de mãe é incondicional?

Uma mãe narcisista dificilmente consegue amar seus filhos com aquele amor incondicional e desinteressado. Há sempre um dos filhos, geralmente do sexo feminino, em que elas projetarão seus defeitos para escondê-los de si mesmas.

Assim, ela enxergará na filha os defeitos que são dela e não da filha.

A Psicanálise entende isto como um mecanismo de defesa do indivíduo chamado projeção, o indivíduo projeta para o mundo externo aquelas características que mesmo sendo suas ele só reconhece no outro e não
as reconhece em si.

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Mães abusivas

Estas mães geralmente se utilizam da condição de mãe para praticarem abusos emocionais com seus filhos. “Eu posso fazer isso com você pois sou sua mãe”. A criança então cresce com aquele abuso entendendo que faz parte da função materna, faz parte daquilo que ela entende como mãe.

Essas mães brigam e castigam excessivamente os filhos, xingam e batem neles, as vezes não suprem as necessidades básicas, como alimentação e cuidados higiênicos, ou quando o fazem praticam outra negligência: o abandono emocional.

Como essas mães não têm capacidade para reconhecer o sentimento alheio, elas não entendem que seus filhos também sofrem, dirão que suas lágrimas são bobagem, desmerecendo qualquer demanda emocional do filho.  Essa invalidação dos sentimentos e emoções dos filhos torna-os inseguros e carentes na fase adulta.

Os filhos crescerão pensando que o problema está com eles, pois não se permitem que sintam angústia, não entendem que estão sendo injustiçados, maltratados e negligenciados.

 

Desenvolvimento da criança e do adolescente

A mãe narcisista não amadurece com o passar dos anos, ela não tem uma evolução emocional. Assim, tão logo a filha cresce, inverte-se a relação.

A filha passa a assumir o papel de mãe e a mãe passa a assumir o papel de filha. A filha sente-se responsável pela mãe, ela terá sempre que suprir a carência emocional de sua mãe, e se não o fizer será culpabilizada por isto.

É muito comum mães narcisistas culparem os filhos pelas suas frustrações e infelicidade.

É um cenário muito triste e de difícil reconhecimento, pois narcisistas jamais admitirão serem narcisistas. Eles sempre negarão qualquer psicopatologia que possam ter o que torna ainda mais difícil o tratamento.

Os filhos quando são pequenos não conseguem saber que a maneira como as suas mães o criam são prejudiciais e causam danos psicológicos para o resto de suas vidas. Eles até podem pressentir algumas injustiças em castigos exagerados, eles até podem notar que suas mães são pouco carinhosas em relação as outras.

Porém, é somente na fase adulta que eles poderão reconhecer que foram criados por mães narcisistas. Mas isto não é uma descoberta fácil.

 

A percepção do filho em relação à mãe

Quando alguém que foi vítima de um narcisista se depara com as características citadas acima ele logo identifica a pessoa em questão.

Aí vem o choque. “Eu sofria abusos e não sabia”, pensam.

A primeira reação é negar. “Minha mãe não pode ser assim”. É duro aceitar que sua mãe estabeleceu uma relação com você que não está baseada no amor puro e fraterno.

Geralmente quando se descobre ser filho ou filha de mãe narcisista, a pessoa entra em estado de luto. Ela fará o luto da mãe que nunca existiu. Pois a pessoa, levada pela norma social, sempre acreditou ter o amor de sua mãe, mesmo que esse amor nunca tenha existido de fato.

 

O que é uma mãe suficientemente boa?

Se você é mãe e está lendo este artigo, deve se estar perguntando:

Será que sou uma mãe narcisista?” Se esta dúvida bateu, reveja seu comportamento e pesquise mais sobre o assunto. Se você quer melhorar a educação dos seus filhos, ser uma boa mãe, segue uma dica abaixo.

Donald Winnicott, psicanalista discípulo de Freud, escreveu sobre o que ele considerava a mãe “suficientemente boa” segundo a psicanálise.

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Em primeiro lugar, a mãe suficientemente boa deve atender as necessidades básicas do filho como alimentação e higiene, mas também deve dar amor e carinho.

Deve emprestar seu corpo promovendo uma sensação de integração para o bebê através do colo. Decodificar o choro do bebê, ou seja, distinguir se é o choro quer dizer fome, cólica, fraldas sujas ou carinho.

Mas, e aqui está a dica mais importante, uma mãe suficientemente boa, segundo Winnicott, não é só aquela mãe que atende a todas os desejos da criança, mas também aquela mãe que frustra o filho adequadamente, na medida certa.

Pois, a criança que não se frustra na infância não vai desenvolver uma maturação emocional. Mães super protetoras tendem a não deixar o filho se frustrar e isso também é prejudicial para a criança. Portanto, a mãe suficientemente boa é aquela que ama e dá limites na medida certa. Mães, busquem essa medida certa!

Referências bibliográficas:

ZIMERMAN, D. Fundamentos psicanalíticos. Teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 2007.

Site: Filhas de Mães Narcisistas: https://filhasdemaesnarcisistas.com.br/

Este artigo foi escrito por Luciana Marcelino, engenheira de formação,  mestre em história da arte, fundadora e arte-educadora do Ateliê Clube da Lua e estudante de Psicanálise. Mora em Belo Horizonte.

 

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