Uma análise do tempo fraturado e do gozo do silêncio em Faulkner, à luz da psicanálise e da clínica do inconsciente.

Tempo Fraturado e Gozo do Silêncio: A Clínica do Inconsciente em William Faulkner

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O Som e a Fúria, de William Faulkner, desdobra-se como uma arquitetura do trauma e da repetição. Este artigo propõe uma leitura psicanalítica do romance a partir da teoria da pulsão de morte, das noções de tempo fraturado e da função do gozo.

Cada narrador – Benjy, Quentin, Jason e o narrador final – revela modos distintos de enfrentamento (ou, fracasso) diante do real do desejo. A fratura na linguagem e a desordem temporal não são falhas estéticas, mas expressão formal de um inconsciente em ruína. Ao final, o texto aproxima a estrutura da obra à clínica do sujeito traumatizado, onde o tempo não passa: retorna.

Uma máquina narrativa marcada pela repetição

Ao publicar O Som e a Fúria, William Faulkner propôs mais que um romance: ele criou uma máquina narrativa que faz do tempo um abismo e da linguagem um campo em ruína. A história da decadência da família Compson é contada por quatro vozes – cada uma revelando um modo de subjetivação atravessado por perda, silêncio, desejo incestuoso e fracasso simbólico.

Do ponto de vista psicanalítico, trata-se de uma obra radical: o tempo não avança, o sentido não se estabiliza e o sujeito aparece como efeito da repetição e do trauma. Neste artigo, buscamos ler O Som e a Fúria como uma montagem do inconsciente, onde a pulsão retorna sem elaboração e o gozo se inscreve como marca do impossível de simbolizar.

Benjy e o tempo fraturado na linguagem

O primeiro narrador é Benjy, um homem com deficiência intelectual, cuja linguagem é descontínua, marcada por saltos temporais e associação livre. Do ponto de vista lacaniano, Benjy representa um sujeito à margem da cadeia significante. O seu discurso é pura metonímia do trauma: as cenas se repetem, as imagens retornam sem ordem, como se o tempo psíquico estivesse preso ao eterno presente da perda.

A sua fixação por Caddy, a irmã, funciona como um objeto perdido (objeto a) em torno do qual toda sua subjetividade se organiza ou desorganiza. Lacan afirma que: “O inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Mas e quando essa linguagem falha? Em Benjy, ouvimos o inconsciente antes da simbolização – um fluxo de consciência real não metabolizado. A sua narrativa não se articula: ela sofre.

Quentin e o gozo impossível de simbolizar

No segundo capítulo, narrado por Quentin, a escrita adquire forma mais lógica – mas a estrutura é delirante. Quentin vive uma obsessão com o tempo, com a honra familiar e, sobretudo, com Caddy, cuja sexualidade ele não tolera.

Freud, em Luto e Melancolia, descreve o sujeito melancólico como aquele que, incapaz de renunciar ao objeto, introjeta a perda e volta a agressividade contra si. Quentin é a encarnação da melancolia freudiana: ele não elabora a perda; ele a repete. A tentativa de “salvar” a irmã beira o incesto e, ao mesmo tempo, o desejo impossível.

Lacan diria que Quentin é atravessado por um gozo que o excede. O tempo é a sua angústia e ele tenta controlá-lo – quebrando o relógio, recitando a passagem das horas – mas o tempo interno é circular. O suicídio, como “passagem ao ato” lacaniano, aparece aqui como expulsão do sujeito do simbólico. Ele não suporta mais o intervalo entre o desejo e a lei. Ele se joga fora da linguagem.

Jason e o gozo do silêncio como crueldade

O terceiro narrador é Jason, irmão mais novo, misógino, ressentido e cruel. A sua narrativa é mais linear, mas sua rigidez é expressão de outra forma de gozo: o sádico. Lacan, ao falar do gozo do outro, aponta como o sujeito, para escapar da castração, pode se posicionar como agente da lei. Jason odeia Caddy por ela ter falhado como mulher ideal e projeta na sobrinha, Quentin II, uma repetição da mãe.

O seu sadismo cotidiano – o controle do dinheiro da sobrinha, a repressão de seus desejos – é um modo de tentar gozar do lugar de superego. Mas esse gozo é vazio. Jason é um sujeito cínico: sabe que não há sentido, mas insiste em gozar da perda dos outros. Freud já dizia: “A crueldade é uma das primeiras manifestações pulsionais”. Jason encarna a pulsão sem travamento: ele age, mas não simboliza.

Dilsey e o tempo que sustenta a casa

O último capítulo, narrado em terceira pessoa, foca em Dilsey, a empregada da casa. Ela é a única figura estável, simbólica, materna – o outro da linguagem. Ela “vê a ruína da casa Compson”, mas não desmorona com ela. A sua força está em suportar o tempo.

Lacan, em seu Seminário 10, nos ensina que a angústia aparece quando o outro vacila. Dilsey não vacila. Ela representa o tempo da continuidade, do cuidado e da alteridade – ainda que marginalizada. É com ela que o romance encerra, e talvez nela esteja o único resto possível de reparação simbólica.

A clínica do tempo fraturado

A clínica psicanalítica, como o romance de Faulkner, não é linear. O sujeito fala em pedaços, repete, volta ao trauma, gira em torno de cenas que não cessam de se inscrever. O tempo subjetivo – como diria Freud – não é cronológico: é retroativo, simbólico e repetitivo.

O Som e a Fúria encena essa lógica: os Compson não vivem no tempo do progresso, mas no tempo do trauma. Benjy retorna ao passado, Quentin o destrói, Jason o nega. A psicanálise escuta esse tempo não como erro, mas como verdade do sujeito. A função do analista é criar um lugar onde esse tempo possa, talvez, ser historicizado – onde o gozo bruto possa ser nomeado, e o som e a fúria possam ganhar significação.

Conclusão

O Som e a Fúria não é apenas um romance sobre uma família decadente é, uma montagem do inconsciente, um estudo da repetição, do gozo e da perda. Cada voz na obra encarna uma forma de responder ao insuportável: com silêncio, com desespero, com crueldade ou com cuidado.

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A leitura analítica permite ver ali sujeitos em luta com o real – não como metáfora, mas como estrutura. Como diz Freud: “Onde estava o Id, deve advir o Eu”. Faulkner talvez não chegue ao Eu, mas nos mostra onde o Id pulsa: na desordem do tempo, na angústia sem nome, no desejo que fere. E cabe à clínica escutar isso – mesmo quando tudo o que se ouve é som e fúria.

Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.

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