Neste artigo, propomos uma análise do livro “Uma História de Amor e Trevas”, do escritor Amós Oz. O suicídio da mãe, vivido na infância e silenciado no seio da memória familiar, configura um núcleo traumático que atravessa toda a obra como uma ausência persistente e marcada. A escrita autobiográfica torna-se, nesse contexto, um trabalho de simbolização e transmissão: transformar o silêncio em linguagem. Com base na teoria freudo-lacaniana, o artigo examina os efeitos do trauma psíquico e histórico na constituição subjetiva e investiga a literatura como espaço ético de escuta e invenção. Em Oz, o romance familiar é também o romance do trauma – um espaço em que amor e trevas não se anulam, mas coexistem.
Silêncio e luto na infância de Amós Oz
Ao publicar essa obra, Amós Oz escreveu não apenas sua autobiografia, mas uma escavação da dor herdada – uma escuta retroativa da própria infância, marcada por uma ausência radical: o suicídio da mãe. Aos 12 anos, Amós Klausner perde sua mãe Fania, que se suicida em silêncio – um gesto que não é nomeado e nem explicado. A escrita, nesse percurso, transforma-se em um modo de elaborar o inominável.
A psicanálise, desde Freud, reconhece essa operação fundamental: “O luto precisa de palavras”. Este artigo propõe reler Oz à luz da teoria freudiana do luto, da transmissão transgeracional do trauma e da elaboração simbólica, que só pode ocorrer “a posteriori” – quando o sujeito finalmente encontra palavras para aquilo que o atravessou.
O trauma psíquico e o indizível materno
Em Luto e Melancolia, Freud diferencia o luto saudável – onde a perda é elaborada e o objeto é simbolicamente separado – da melancolia, onde o sujeito retém a perda dentro de si. Na infância de Amós Oz, o luto não foi possível. A morte da mãe foi silenciada, ocultada, não nomeada.
Como nos diz o autor: “Não havia ninguém para perguntar e ninguém falava”. O trauma materno (exílio, depressão, guerra) torna-se um corpo estranho dentro da casa. Fania, exilada da Europa e de si mesma, carrega o trauma dos pais sobreviventes, das línguas perdidas, dos sonhos quebrados – e o transmite ao filho, não com palavras, mas com o olhar, com o corpo, com a ausência. A criança, incapaz de simbolizar, introjeta esse silêncio como forma de estruturação. O Eu se forma na sombra do não-dito.
Transmissão transgeracional do trauma na narrativa
Alguns traumas não são elaborados, mas transmitidos como “criptas” psíquicas: compartimentos fechados no inconsciente, onde a dor do outro se aloja. Em “Uma História de Amor e Trevas”, o sujeito – escritor – escava as camadas mais profundas.
A dor não é apenas sua – é da mãe, dos avós, dos ancestrais que vieram da Polônia e da União Soviética – na época, a atual Ucrânia -, fugindo da violência e do antissemitismo. Oz escreve: “A tristeza da minha mãe não vinha apenas do presente. Era uma tristeza antiga, herdada, de uma infância fria e um casamento sem palavras.”
Essa herança silenciosa atravessa gerações, como o que Lacan chamaria de significante foracluído: aquilo que não pôde ser nomeado retorna como angústia, repetição ou ato.
A função paterna e a separação simbólica
O pai de Amos Oz, Yehuda Klausner, é intelectual, erudito, ausente. Há um excesso de livros, de palavras, mas pouca escuta. Lacan afirma que a função do Nome-do-Pai é a de inscrever a lei simbólica que separa o filho da mãe e funda o sujeito no desejo. Em Oz, essa função é ambígua: o pai é culto, mas incapaz de acolher o feminino em sofrimento.
Fania, sem espaço simbólico para existir como mulher desejante, apaga-se. Para o filho, a saída não é a identificação com o pai – mas a ruptura. Ele troca o nome, muda de cidade e inventa a si mesmo. Essa separação é fundante, mas não pacífica. A dor da mãe permanece como resto – como gozo melancólico que a escrita tenta metabolizar.
A escrita autobiográfica como elaboração
Freud aponta que o luto precisa ser elaborado – é necessário investir libido em novos objetos, novos vínculos. Para Oz, a escrita cumpre essa função. Mais do que contar sua história, ele a reinscreve. Mais do que recordar, ele escuta o que antes não pôde ser dito.
Para Lacan, essa operação se aproxima do que ele chama de passe: um atravessamento que transforma a dor em saber. A literatura, como a clínica, é o espaço onde o sujeito pode, finalmente, encontrar lugar para seu desejo – mesmo que esse lugar seja feito de trevas.
Subjetividade eticamente responsável
O título do livro não opõe “amor” e “trevas” – ele os une. A subjetividade que emerge ao fim do romance não é redimida, mas complexa. É uma subjetividade que sabe que o amor está atravessado pela perda, que a linguagem não salva, mas permite habitar o que fere.
De acordo com a teoria lacaniana: “O analista só pode operar desde sua própria falta”. Oz, enquanto escritor, opera desde sua ferida. Ele não reconcilia os opostos, ele os sustenta. Assim, o romance é também um gesto ético: não apagar a dor, mas a escuta. Não venceu o trauma, lhe deu forma.
Considerações finais
Uma História de Amor e Trevas é uma narrativa onde a palavra encontra o trauma e não o apaga – mas o reinscreve. A Psicanálise, como a literatura de Oz, não promete cura no sentido médico – mas elaboração, escuta e tempo. A perda materna, silenciada na infância, retorna como impulso criativo.
A escrita é o lugar onde o filho fala – e, ao falar, escuta a mãe. Como na clínica, é preciso tempo para que o sujeito possa dizer o que antes o atravessava. Amós Oz escreve o luto e nos ensina que mesmo as trevas podem serem habitadas quando há linguagem, quando há amor. Ainda que tardio.
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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
