Vamos explora o inconsciente encantado em Mozart, destacando como o brincar, a relação com o pai e a ópera A Flauta Mágica revelam conflitos, desejos e sublimações na sua trajetória criativa sob o olhar da psicanálise.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791) é muitas vezes visto como o prodígio inato, o “gênio alegre”, dotado de uma musicalidade que parecia jorrar espontaneamente. Mas sob esse mito do dom Divino, encontra-se um sujeito psíquico complexo, dividido entre a exigência paterna, o desejo de liberdade e o prazer lúdico da criação.
Neste artigo, propomos uma leitura psicanalítica de Mozart, centrada na tensão entre obediência e desejo, e na sublimação operada por meio da fantasia, com foco especial em sua ópera “A Flauta Mágica” (Die Zauberflöte, 1791), verdadeiro teatro do inconsciente.
A Criança Gênio e o Pai Real
Desde a infância, Mozart foi moldado como um projeto do pai, Leopold, que o exibiu pelas cortes europeias como um prodígio. A relação entre os dois é estruturalmente edípica: amorosa, mas marcada por dominação, expectativa e culpa. O pai deseja controlar, orientar e proteger. O filho deseja agradar, mas também romper, criar e ser livre.
Freud escreveu que “todo homem é, de alguma maneira, um substituto do pai morto” e Mozart parece ter internalizado esse conflito: ao mesmo tempo que compunha para agradar, desafiava as convenções formais, buscava autonomia estética e recusava a contenção emocional. A sua música é frequentemente um misto de submissão simbólica e rebeldia pulsional.
O Brincar como Sublimação
Diferente de Beethoven (com sua ética trágica do desejo) ou Chopin (melancólico e delicado), Mozart escreve a partir de uma posição próxima ao brincar, tal como definido por Winnicott. Ele transita com leveza entre tonalidades, personagens, formas musicais, como quem experimenta o mundo sem medo do juízo.
Essa sublimação lúdica transforma o desejo em jogo, a dor em melodia, o conflito em comédia. Mesmo nos momentos mais dramáticos, a sua música carrega uma leveza formal, como se dissesse ao ouvinte: “A vida é difícil, mas suportável – desde que possamos brincar com ela”.
Essa qualidade não deve ser confundida com superficialidade. É preciso recordar que, para Freud e Winnicott, o brincar é uma forma séria e profunda de elaborar conteúdos inconscientes, o que Mozart faz com maestria.
A Flauta Mágica e o Inconsciente Encantado
Em “A Flauta Mágica”, composta pouco antes de sua morte, Mozart condensa, por meio de uma fábula simbólica, o percurso psíquico do sujeito rumo à maturidade. A ópera narra a jornada do príncipe Tamino, que, com a ajuda de uma flauta encantada, deve passar por provações para alcançar a sabedoria e o amor pleno ao lado de Pamina.
A estrutura da narrativa é nitidamente iniciática e edipiana: há uma Rainha da Noite (mãe terrível e poderosa), um Sarastro (pai simbólico severo, mas justo), e o herói que deve renunciar à fantasia materna para adentrar o mundo do saber e da ordem.
A famosa ária da Rainha da Noite (“Der Hölle Rache”) encena a castração em sua forma mais explícita: ela exige de Pamina o assassinato de Sarastro. Mas Pamina, ao recusar obedecer à mãe, realiza o ato simbólico de se separar da mãe e entrar no campo do desejo próprio, sustentado por Tamino.
Essa transição do matriarcal para o simbólico é, para Lacan, a entrada do sujeito no campo da linguagem, da lei e da castração estruturante. Em “A Flauta Mágica”, a ópera deixa de ser apenas entretenimento para se tornar encenação do drama psíquico universal: a travessia da fantasia à realidade, da dependência à subjetivação.
Mozart e a Pulsão de Vida
Apesar de morrer aos 35 anos, Mozart não transmite, como Chopin ou Schubert, uma vivência melancólica ou resignada. A sua música é radicalmente erótica no sentido freudiano, ela pulsa, deseja, brinca e seduz. Até suas missas e réquiens parecem compostos por alguém que ama a vida, mesmo confrontando a morte.
O seu “Requiem”, inacabado, é menos uma despedida que uma oferenda: ele escreve não em nome do fim, mas da permanência. É um sujeito que, mesmo doente, compõe com intensidade, como se dissesse: “enquanto há criação, há desejo; enquanto há som, há vida.”
Conclusão
Mozart, sob o olhar da Psicanálise, não é apenas o prodígio divino da música, mas um sujeito em conflito com a autoridade, com o desejo e com o limite. A sua obra nos mostra como o brincar pode ser uma forma séria de sublimar o desejo, como o simbólico pode ser encenado por meio da arte, e como a fantasia, quando bem atravessada, não aliena, estrutura.
“A Flauta Mágica”, em especial, é seu testamento psíquico: uma ópera onde o sujeito passa pelas provas da castração, renuncia à mãe, encontra o pai simbólico e, enfim, conquista a maturidade do desejo.
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Mozart nos ensina que o inconsciente também canta e que há um gozo possível na travessia do conflito, desde que se tenha uma flauta – mágica ou simbólica – nas mãos.
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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
