Melancolia estrutural em Schubert revela a música como inconsciente sonoro, entre o objeto perdido e o tempo suspenso.

Melancolia Estrutural em Schubert: a música como inconsciente sonoro

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Franz Schubert (1797–1828), ao contrário de Beethoven, não encarna o mito do herói trágico que enfrenta e transforma o destino. A sua trajetória artística e existencial se constrói em uma tonalidade distinta: a da melancolia estrutural. Longe da grandiosidade de um Prometeu moderno, Schubert nos oferece uma escuta íntima da dor, do efêmero, daquilo que não se realiza, mas insiste.

Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da obra de Schubert como expressão de um sujeito marcado pela perda precoce, pela fragilidade do Eu e pela potência criadora que emerge da ferida narcísica.

A música de Schubert não grita; ela murmura. A sua linguagem está menos preocupada com a conquista simbólica do mundo e mais voltada para a escuta do que não se simboliza: o luto, a ausência, o tempo que escorre. Nesse sentido, ele se configura como um sujeito cuja obra constitui um verdadeiro inconsciente sonoro, onde pulsão, memória e desejo se entrelaçam numa tessitura que ressoa não com o herói, mas com o espectro.

A melancolia estrutural e o Eu ferido

Freud, em “Luto e Melancolia”, faz uma distinção fundamental entre o luto – um processo de desligamento do objeto perdido – e a melancolia, em que o objeto perdido é introjetado no Eu, resultando numa identificação mortífera. Schubert parece encarnar essa posição melancólica. Ao contrário do luto, que envolve um movimento de elaboração, a melancolia fixa o sujeito na perda como uma forma permanente de ser.

A sua música é impregnada por essa tonalidade afetiva. De “Winterreise” (Viagem de Inverno) ao Quinteto “A Truta”, da “Fantasia para o Piano a Quatro Mãos” em F minor, encontramos o retorno insistente de temas que não se resolvem, de melodias que se perdem em si mesmas.

A repetição aqui não é uma conquista, mas uma estagnação. A forma musical se torna espelho da estrutura melancólica: temas que retornam sem fechamento, modulações inesperadas, finais suspensos – todos esses elementos indicam a presença de uma dor que não pode ser elaborada, apenas reiterada.

A identificação narcísica com o objeto perdido é visível na própria vida afetiva de Schubert. Ele nunca se casou, manteve relações ambíguas com amigos e viveu à margem da sociedade vienense, como um “estranho familiar” (o Unheimlich freudiano). A sua morte precoce, aos 31 anos, antecedida por sífilis, miséria e solidão, apenas acentua a aura de um sujeito cuja obra não é um gesto de afirmação, mas um testamento da perda como fundamento.

Música e inconsciente sonoro

Lacan, ao longo de seus seminários, sustenta que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, mas e se, no caso de Schubert, a música for essa linguagem? A linguagem do inconsciente não diz, mas canta; não representa, mas ressoa.

Schubert compõe como quem sonha. Em suas “Impromptus”, por exemplo, é possível perceber um deslizamento entre registros – do imaginário, com suas melodias quase infantis, ao simbólico, com estruturas harmônicas complexas, até o real, onde a música beira o colapso. A música de Schubert muitas vezes toca o ponto de falha da linguagem – aquilo que Lacan chamaria de ponto de real, onde o significante não cobre mais o gozo, e o sujeito se vê diante de um vazio impossível de preencher.

Nesse sentido, ele não apenas escreve música: ele escreve o inconsciente em notas. A sua obra funciona como um espaço transicional (no sentido winnicottiano), onde o sujeito – órfão simbólico – cria uma continuidade de ser por meio da escuta.

O objeto perdido e o desejo impossível

O amor em Schubert é quase sempre uma ausência. As suas canções – mais de 600 Lieder – são endereçadas a um outro que nunca responde. Em “Erlkönig” (O Rei dos Elfos), por exemplo, – é baseado em um poema de Goethe – a criança clama por socorro ao pai enquanto é tragada por uma figura alucinatória. O outro parental tenta protegê-lo, mas é em vão, o sujeito (criança) sucumbe ao delírio e o destino é certo.

Este outro – seja o pai, o amigo, o amante – está sempre ausente ou inacessível. Na lógica lacaniana, esse é o “objeto a”: a causa do desejo, mas estruturalmente perdido. Schubert, em sua vida e obra, encarna essa busca eterna por um outro que nunca se realiza. As suas relações afetivas, marcadas por idealizações e frustrações, fazem eco ao sujeito dividido entre o desejo de fusão e a impossibilidade de nomear esse desejo.

Assim, o erotismo schubertiano é menos carnal e mais espectral. O desejo, desprovido de objeto, retorna como canto, como evocação, como vestígio. A música se torna o espaço onde esse outro pode ser figurado sem jamais ser possuído.

O tempo suspenso e a estética da espera

O tempo em Schubert não avança; ele paira. A sua música desafia a linearidade temporal, preferindo um tempo subjetivo, como o do sonho ou da recordação. O desenvolvimento musical em suas sonatas não segue a teleologia beethoveniana. Em vez disso, repete-se, hesita, se recolhe.

Este tempo suspenso é expressão de uma subjetividade marcada pela espera, não a espera pela resolução, mas a espera como forma de ser. O sujeito schubertiano não se move para frente, mas habita o intervalo, o “entre-lugar”, o “nachträglich” freudiano: o tempo retroativo do inconsciente.

A última sonata de Schubert (D. 960), escrita pouco antes de sua morte, é talvez a mais clara expressão dessa estética da suspensão. O primeiro movimento, com seu motivo de baixo repetido, cria um campo de escuta onde o tempo se dilata e a percepção se torna quase meditativa. Aqui, mais do que compor, Schubert sonha.

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Conclusão

Schubert, sob a ótica da Psicanálise, é o sujeito da melancolia sublimada. A sua música, longe da afirmação heroica de um ego soberano, dá voz ao que falta, ao que se perdeu, ao que não se simboliza.

Se Beethoven nos ensina a não ceder ao desejo, Schubert nos mostra o que acontece quando o desejo se perde em sua própria ausência e como – mesmo assim – é possível criar. A sua obra é um testemunho sensível de um sujeito que transforma o luto em forma, a dor em canto e a perda em matéria estética.

Na era do barulho e da autoafirmação, Schubert permanece como um convite radical à escuta: escuta do silêncio, da sombra, do intervalo. Ele não grita; ele sussurra e nesse sussurro, revela o abismo e a beleza de ser sujeito.

Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.

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