mito de Lacanianos

O mito de Lacanianos sobre sessões de 5 minutos

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“Só podem ser reconhecidos como pertencentes ao passado, só podem perder sua importância e ser destituídos de sua catexia de energia, quando tornados conscientes pelo trabalho da análise, e é nisto que, em grande parte, se baseia o efeito terapêutico do tratamento analítico. Muitíssimas vezes, tive a impressão de que temos feito muito pouco uso teórico desse fato, estabelecido além de qualquer dúvida, da inalterabilidade do reprimido com o passar do tempo. Isto parece oferecer um acesso às mais profundas descobertas. E, infelizmente, eu próprio não fiz qualquer progresso nessa parte” (Freud, 1932). Continue a leitura e entenda mais sobre o mito de Lacanianos.

Entendendo o mito de Lacanianos

A ignorância é sempre o rádice de protestos incoerentes, muitos dos quais visivelmente munidos de boa fé. Fui questionado em um grupo de estudos entre colegas Psicanalistas de diferentes orientações teóricas sobre como pessoas “tão inteligente” poderiam aceitar a possibilidade de sessões de análise durarem 5 minutos, como poderíamos considerar esse absurdo de propor sessões tão curtas mesmo conhecendo a literatura psicanalítica.

“No id, não existe nada que corresponda à ideia de tempo; não há reconhecimento da passagem do tempo, e — coisa muito notável e merecedora de estudo no pensamento filosófico – nenhuma alteração em seus processos mentais é produzida pela passagem do tempo.

Impulsos plenos de desejos, que jamais passaram além do id, e também impressões, que foram mergulhadas no id pelas repressões, são virtualmente imortais; depois de se passarem décadas, comportam-se como se tivessem ocorrido há pouco” (Freud, 1932).

Lacan e o mito de Lacanianos

Refletindo a respeito ficou claro que essa é uma pontuação não muito incomum entre os que não tiveram acesso aos seminários de Lacan, talvez por falta de interesse ou algum equívoco bibliográfico, e acabaram por formular suas concepções a partir de alguma literatura que desconheço, primeiramente porque Lacanianos não fazem propostas de tempo de sessão mediante apenas à composição de agenda.

É importante compreender que não existem sessões curtas definidas por Psicanalistas Lacanianos, visto que o tempo da sessão, na premissa de tempo lógico e não mais cronológico, é definido a partir do ponto de corte que surge como reflexo à manifestações inconscientes do paciente.

Dessa forma podemos garantir que não, não é o Lacaniano que propõe sessões curtas e sim “a história do paciente e seus sintomas” que gritam por serem escutados, e ganham a partir do corte, o palco e os holofotes passando a receber plena atenção da consciência que o rejeitava até então.

O mito de Lacanianos e a dupla inscrição freudiana

“Mas não seria o próprio corte interpretativo que, para aquele que titubeia na borda, constitui um problema, por criar consciência? Ele revelaria então a topologia que o comanda num cross-cap, ou seja, numa banda de Moebius. Pois é só por esse corte que essa superfície (…) se vê, num depois, provida de uma frente e um verso.

A dupla inscrição freudiana não seria, portanto, da alçada de nenhuma barreira saussuriana, mas da própria prática que formula a pergunta, isto é, do corte mediante o qual o inconsciente, ao se retirar, atesta que consistia apenas nele, ou seja, quanto mais o discurso é interpretado, mais confirma ser inconsciente.

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A tal ponto que somente a psicanálise descobriria que existe um avesso do discurso – sob a condição de interpretá-lo” (Lacan, 1970/2003, p. 416- 417). Então em que momento da sessão tal fenômeno poderia vir a ocorrer? No momento em que o paciente fizer com que ocorra, pois o corte faz-se puramente reflexo de manifestações inconscientes do próprio paciente em seu discurso.

O mito de Lacanianos sobre sessões de 5 minutos

A partir desse instante do corte, não haverá mais nenhuma distração além do que acabara de emergir de si próprio para elaborar enquanto volta para sua casa muitas vezes em um profundo trabalho de elaboração a respeito dos possíveis motivos para esse mesmo corte, motivos esses endossados pelos mecanismos transferenciais aliados ao suposto saber direcionado à figura do analista.

“Hiância, pulsação, uma alternância de sucção, para seguirmos certas indicações de Freud: é disso que precisamos dar conta, e foi isso que tratamos de fazer fundamentando-o numa topologia. A estrutura daquilo que se fecha inscreve-se, com efeito, numa geometria em que o espaço se reduz a uma combinatória: ela é, propriamente falando, o que ali se chama de uma borda.

Ao estudá-la formalmente nas consequências da irredutibilidade de seu corte, nela poderemos reordenar algumas funções, entre a estética e a lógica das mais interessantes. Nisso percebemos que é o fechamento do inconsciente que fornece a chave de seu espaço e, nomeadamente, a compreensão da impropriedade que há em fazer dele um interior” (Lacan, 1964/1998, p. 852)

A compreensão consciente

Como consequência, uma vez que comecem a emergir os lapsos de uma possível compreensão consciente dos motivos que desencadearam o corte em questão, que teve seu impulso apontado pelo próprio paciente e não pelo analista em algum momento da sessão, voltamos as raízes Freudianas nas quais apenas a partir da elaboração pode-se abrir as portas para dissolução dos sintomas.

Considerações finais

“Por que “análise” – que significa dividir ou separar, sugere uma analogia com o trabalho, levado a efeito pelos químicos, com substâncias que encontram na natureza e trazem para os seus laboratórios? Porque, em um importante aspecto, existe realmente uma analogia entre os dois trabalhos.

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    Os sintomas e as manifestações patológicas do paciente, como todas as suas atividades mentais, são de natureza altamente complexa; os elementos desse composto são, no fundo, motivos, impulsos instintuais. O paciente, contudo, nada sabe a respeito desses motivos elementares, ou não os conhece com intimidade suficiente.

    Ensinamo-lo a compreender a maneira pela qual essas formações mentais altamente complicadas são compostas; remetemos os sintomas aos impulsos instintuais que os motivaram; assinalamos ao paciente esses motivos instintuais, que estão presentes em seus sintomas, e dos quais até então não tinha consciência como o químico que isola a substância fundamental, o ‘elemento’ químico, do sal em que ele se combinara com outros elementos e no qual era irreconhecível.” Freud (1918/2006, p.173)

    O presente artigo foi escrito pelo autor Daniel S. Psicanalista Clínico, autor, colunista, coordenador do espaço MinhaTerapia.org e colaborador literário em Psicanálise, Filosofia e Cultura. Perfil no Instagram dedicado à exposição de conteúdos Psicanalíticos autorais e clássicos: @psicanalise.br

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