Neste artigo, damos continuidade à série sobre as estruturas psíquicas na psicanálise, voltando-nos agora para a psicanálise e psicose. Freud e Lacan trouxeram contribuições fundamentais para compreender essa estrutura marcada pela ruptura com a realidade, o delírio e a foraclusão.
Definição de psicose psicanálise
A psicose é uma estrutura da personalidade que prejudica a percepção e o pensamento da pessoa, afetando sua capacidade de julgamento. Diferentemente do neurótico, o psicótico não reconhece as regras ou, mesmo que as reconheça, se sente indiferente a elas, nem respeita as normas estabelecidas.
Por ser isento de culpa ou ansiedade, é possível que seja capaz de distinguir o certo do errado, mas por se colocar sempre em primeiro lugar e não possuir capacidade empática, tende a seguir o que considera bom para si, independentemente de “certo ou errado” dentro da sociedade ou comunidade em que está inserido.
Esse tipo de estrutura de personalidade costuma estar associada a transtornos psíquicos mais graves e crônicos. Quando ocorre um surto psicótico, é comum que haja alucinações e medo paranoico. Seus sintomas são mais intensos e persistentes, afetando negativamente a rotina e crítica da pessoa, como ocorre na manifestação da esquizofrenia.
Alguns especialistas ressaltam que é uma das estruturas de personalidade mais perigosas, porque os psicóticos são capazes de ações extremas sem mostrar qualquer remordimento.
Quando o indivíduo é muito inteligente, todo esse potencial é utilizado para manipular, controlar e para submeter aqueles que estão a seu redor. Na manifestação de transtornos mentais desta estrutura pode-se mencionar: sociopata, desvio de caráter e esquizofrenia.
Delírio e alucinação
A psicose não tem pré-história. O significante não está no Outro, está no próprio sujeito. Portanto, a intersubjetividade está comprometida. O significante não representa o sujeito (como na neurose) para um outro significante. A tarefa primordial do psicótico está na reconstrução da sua história.
Rearranjo da realidade – protege o sujeito do fragmento ameaçador. Substituição da realidade. Ruptura com a realidade psíquica (interna). Ruptura com a realidade exterior.
Serve-se da fantasia ligada ao ego para remodelar a realidade, com a qual restabelece a relação. Busca substituir a realidade pela alucinação e pelo delírio. Cria uma outra realidade. O recalcado se impõe. A realidade se impõe. O fracasso se dá porque a pulsão sempre se impõe. O fracasso se dá porque a realidade sempre se impõe. Não traz satisfação completa. Não há uma solução satisfatória. A realidade não é satisfatória.
Schreber e Freud
Freud parte da neurose para pensar a psicose. Freud desenvolve sua teoria sobre as psicoses baseando-se em Schreber. Fez um estudo cuidadoso nos seus escritos buscando encontrar um sentido no seu delírio, assim como fez com o sintoma neurótico.
Sobre o delírio de Schreber: ele teria sido designado por Deus para gerar uma nova raça humana. Ele teria que ser a mulher de Deus. Freud interpreta esse delírio como uma defesa contra a sua homossexualidade*. *Memórias de um doente dos nervos (1905). Houve quem já tenha considerado a psicose como uma “neurose malsucedida”.
Foraclusão Nome-do-Pai em Lacan
Para Lacan, a psicose decorre da carência da função paterna. A presença do pai é necessária, mesmo quando ele está ausente simbolicamente.
Enquanto Freud parte da lógica da neurose (pelo simbólico) para tratar a psicose, Lacan inverte esse caminho, tratando a neurose a partir da psicose, entendendo que a psicose está além do simbólico (no campo do real).
Na neurose, uma parte da realidade psíquica é elidida, mas não desaparece, continua pertencendo à ordem simbólica. Esta realidade é guardada secretamente. Na psicose, a realidade desaparece, dando lugar a um mundo real, quimérico, singular do sujeito.
Conclusão
A psicose psicanálise, como vimos, apresenta-se como uma estrutura marcada pela ruptura com a realidade, pelo delírio e pela foraclusão. Freud e Lacan trouxeram análises centrais, desde o estudo de Schreber até a formulação do conceito de Nome-do-Pai.
No próximo artigo da série, avançaremos para a perversão na psicanálise, explorando a transgressão, o desejo e os limites do tratamento.
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Texto de autoria de Elane Cristina De Araújo, adaptado para publicação no blog Psicanálise Clínica.
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Este artigo foi baseado no artigo da aluna Elane Cristina De Araújo, originalmente apresentado sob o título: “Conhecer a Diferença entre a Psicose e a Perversão”.
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Parte 1: Psicanálise e Neurose: Tipos, Sintomas e Freud/Lacan
Parte 2: Psicanálise e Psicose: Delírio, Foraclusão e Freud/Lacan
Parte 3: Psicanálise e Perversão: Transgressão, Desejo e Freud/Lacan
