Este artigo propõe uma leitura psicanalítica de Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame, ambos de Victor Hugo, à luz da teoria psicanalítica da constituição subjetiva. As obras são analisadas como narrativas da falência do superego e da travessia do sujeito em relação à lei, ao outro e ao desejo.
Jean Valjean, Javert, Quasímodo e Claude Frollo encarnam formas distintas de inscrição e resistência ao simbólico, permitindo compreender a literatura de Hugo como um espaço dramatúrgico do inconsciente: a ficção como campo de emergência da verdade subjetiva.
Com base em conceitos como pulsão, recalque, formação do Eu, gozo e real, o texto articula literatura e psicanálise como discursos que escutam – e sustentam – o que a linguagem não pode dizer.
A literatura como encenação da constituição subjetiva
Victor Hugo não é um autor “psicanalítico” no sentido estrito — ele é anterior a Freud. No entanto, como afirmou Lacan, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, e nesse sentido, a literatura — enquanto ordenação significante do desejo — é um terreno fértil para a escuta do sujeito.
Hugo dramatiza não apenas o sofrimento social, mas as tensões internas da psique: a luta entre lei e desejo, entre culpa e perdão, entre o imaginário do eu e a ferida do real. Os seus romances não ilustram a psicanálise, mas performam o que ela escuta: a verdade do sujeito como fenda, como falta, como resto.
Jean Valjean e a ética do desejo
Jean Valjean é um sujeito destituído: reduzido ao corpo marcado pela punição, privado de nome e de lugar simbólico. Como afirma Freud, “a culpa inconsciente é mais poderosa do que a punição real”.
A transformação subjetiva de Valjean não se dá pelo tempo ou pela redenção religiosa, mas pela intervenção do outro benevolente, na figura do Bispo Myriel, que o perdoa pelo furto de seus objetos de prata e lhe presenteia com os mesmos como um demonstrativo de seu perdão.
Este ato, ao invés de reforçar o superego punitivo, propõe uma travessia ética:
“Jean Valjean, meu irmão: com esta prata, comprei tua alma para Deus”.
Não se trata de moral cristã, mas de inscrição simbólica. Valjean aceita o gesto como reescritura de si. O objeto oferecido (a prataria) não é mercadoria, mas significante: transforma a culpa em palavra.
Após este episódio, Valjean constitui-se como sujeito ético – não obediente, mas responsável. No vocabulário lacaniano, ele faz uma travessia do fantasma: sai da posição de vítima do outro (a Justiça, o Estado) para tornar-se o autor de seu próprio desejo, mesmo quando esse desejo o confronta com a perda – como ao entregar-se a Cosette (sua filha adotiva).
Falência do superego em Javert
Javert não é um antagonista: é o superego em estado puro. Seu ideal é a lei, desprovida de desejo. Ele é o agente do Nome-do-Pai em sua forma morta.
Mas quando Valjean o perdoa, Javert se depara com o real: um sujeito que transgride sem perversão, que age fora da lei sem cair no gozo. Isso, para ele, é inassimilável:
“Ele me perdoou. Eu o odeio por isso”.
Javert implode porque o superego, confrontado com a alteridade do desejo ético, não possui lugar. O seu suicídio é a única resposta possível diante da contradição: ele não suporta um outro que falha, que cede, que perdoa.
Lacan diria que ele é vítima da foraclusão do desejo: ao excluir o desejo da estrutura, tudo que resta é a morte.
Quasímodo e a escuta do sujeito excluído
Quasímodo é o sujeito cuja imagem não se inscreve no espelho social. Deformado, surdo, isolado – ele não é visto nem ouvido como um sujeito. Mas paradoxalmente, ele escuta. Escuta os sinos, escuta a Esmeralda, escuta o mundo por uma via não especular, não narcísica.
Notre-Dame não é apenas uma catedral: é o grande outro que o acolhe em sua dimensão simbólica. A cena em que ele toca os sinos até a exaustão é um grito de existência:
“Ele era o som; ele era a torre; ele era a própria catedral”.
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Quasímodo não deseja “ter” Esmeralda – ele deseja ser visto por ela. E nesse ponto, ele se situa no campo do desejo como falta, não como objeto. Ele não a possui, mas a protege. Ao final, morre ao lado dela.
O seu desejo não é erótico, mas ético: desejo de lugar, de escuta, de nome. Assim, Quasímodo encarna a figura do sujeito que, mesmo excluído do espelho onde os outros se refletem, insiste em existir por outras vias – não pela imagem, mas pelo som; não pelo olhar, mas pela escuta.
A sua trajetória não é a de quem vence, conquista ou se integra plenamente ao mundo dos homens, mas a de quem encontra, na ruína da exclusão, um modo singular de habitar o simbólico.
Ao morrer junto ao corpo de Esmeralda – de fome e tristeza – ele encontra, enfim, um lugar, não no mundo do reconhecimento, mas no do testemunho. A sua morte não é um fracasso, mas a fidelidade a um desejo que, mesmo ignorado, nunca foi silenciado.
Claude Frollo e o gozo que escapa ao simbólico
Claude Frollo é um sacerdote, figura do saber e da lei. No entanto, a sua relação com Esmeralda revela a falência de sua estrutura simbólica: o desejo irrompe como gozo, como excesso não nomeável. Ele não deseja amar – deseja aniquilar.
A sua repressão se converte em sintoma: vigilância, obsessão e culpa.
“Ela me enfeitiçou. Não sou eu quem a deseja – é o demônio que age em mim.”
Ao atribuir o desejo ao demônio, Frollo opera a externalização do gozo: o desejo não é seu, é do outro maligno. Lacan chamaria isso de posição paranoica frente ao desejo.
Por isso, ele destrói aquilo que não pode simbolizar: mata Esmeralda, e morre em seguida. Como Javert, é sujeito do superego – mas sem ética. É o gozo puro, destrutivo, sem mediação.
Travessia do sujeito e testemunho na ficção
Victor Hugo encena, em seus romances, não apenas dramas sociais, mas tragédias do desejo. Os seus personagens não são arquétipos morais, mas sujeitos em conflito com a lei, com o outro, com o corpo e com a linguagem.
Valjean atravessa o fantasma; Javert implode; Quasímodo escuta; Frollo destrói. Em todos, a estrutura do sujeito aparece: como uma fenda, como um sintoma, como o resto.
A ficção de Hugo não “ensina” – mas escuta. A escuta do que falta. E nisso, encontra-se com a psicanálise: como ética da escuta do desejo, do recalque e da divisão.
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Karine Pellin é Psicanalista Clínica de orientação Freudiana, também possui formação em Direito e pós-graduação em Direito de Família e em Direito Sucessório, atuou como Conciliadora Extrajudicial no Juizado Especial Cível do Fórum de Lages/SC e no CEJUSC; atuou como especialista familiar em vários escritórios de Advocacia. A sua formação multidisciplinar une o olhar jurídico ao analítico ao escopo profundo da Psicanálise, oferecendo reflexões sensíveis e embasadas sobre questões humanas, relacionais e familiares. Filha de Psicóloga, teve desde muito cedo contato com o universo da mente humana, o que levou a descobrir e se encantar pela Psicanálise – uma paixão que cresceu ao lado do seu gosto pela escrita. Apesar da sólida formação jurídica, foi na escuta clínica e na escrita que encontrou o seu verdadeiro caminho. Atualmente, atua exclusivamente como Psicanalista Clínica e Colunista, com diversos artigos publicados e outros em processo de publicação. O seu amor pela escrita é profundo quanto o seu compromisso com o cuidado emocional. Para entrar em contato pode acessar suas redes sociais; Instagram @karinepellin e email: [email protected]. E através destes, poderá ser repassado o número de contato, endereço e valores para aqueles que tem interesse em fazer uma consulta em Lages/SC.
