arte e inconsciente na psicanálise

Arte e Inconsciente: uma linha tênue

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Neste artigo, vamos tratar da linha tênue que existe entre arte e psicanálise, entre arte e inconsciente.

As feridas narcísicas

Dentre as várias revoluções trazidas por Sigmund Freud, no campo da psicanálise, podemos citar a questão das feridas narcísicas da humanidade. Nela, temos três fundamentações:

1. A descoberta da Terra não ser o centro do universo tira a roupagem especial da espécie humana.

Como enunciado a expressão chamada por Carl Sagan, “o pálido ponto azul”, uma Terra diminuta, cercada por várias galáxias.

2. Com o caminhar do tempo, século XIX, um jovem cientista inglês publica a brilhante teoria, A Teoria da Origem das Espécies (Charles Darwin).

Trabalho que ficou durantes anos em uma gaveta, justamente por ser considerado um tipo de heresia nos moldes da época, visto que anuncia o fato de estamos todos em uma mesma árvore evolutiva, com ancestrais comuns.

Resumidamente, é a mensagem de um relojoeiro cego, em não há um ser especial, todos estamos em pé de igualdade aos olhos da evolução. Desde um fóssil de trilobita extinto no Permiano, por exemplo, até a espécie humana, não há preferência por esse artesão.

3. E por fim, Freud nos apresenta o conceito do inconsciente, que demonstra que não apenas os fatores conscientes regem a vida humana, mas o incontrolável inconsciente manifesto nos sonhos, nas resistência, nos traumas e nos impulsos.

Segundo Freud, o aparelho psíquico pode ser dividido em três níveis: inconsciente, pré-consciente e consciente.

Ideias sobre ser humano, arte e inconsciente para Freud

  • Os valores do inconsciente são considerados valores primitivos, sendo guiado pelas pulsões. Ou seja, não há um tabu, uma formação moral e ética.
  • Já o pré-consciente, presente no nível do consciente e inconsciente, consegue controlar os impulsos do inconsciente, considerando os valores éticos e morais.
  • E, por fim, o consciente realiza uma espécie de censura.

Por exemplo, uma pessoa tem o desejo de ter dois relacionamentos, mas ela irá julgar o que seria a situação mais adequada, a partir dos valores adquiridos ao longo da vida. Para facilitar o entendimento, tudo o que está abaixo da superfície de um iceberg pode ser chamado de inconsciente.

Logo temos um instância que foge do nosso entendimento racional. Assim, como colocarmos uma das frases mais famosas na história da humanidade em prática? Ou seja, como conhecermos a nós mesmos?

A arte como chave para entender o inconsciente

Ademais, podemos pensar a respeito do ensaio de Hamlet (de William Shakespeare), em que em um dos diálogos surge a pergunta: “Quem está aí?

Nesse sentido temos como uma das ferramentas, a psicanálise.

Sendo uma ciência fundamentada na livre associação de ideias do paciente, ou seja, permite a liberdade da exposição dos seus vários sentimentos, como, por exemplo, os contidos nos sonhos e nos lugares mais recônditos do seu ser.

Outra característica é a neutralidade do analista, o que promove um espaço de não julgamento por parte do psicanalista, mas, sim, um espaço de construção, autoconhecimento. Não há a busca, nesse sentido, em suscitar o conceito de culpa e julgamento no processo terapêutico. Lembremos que a culpa pode ser paralisante e contribuir na formação de neuroses.

Totem e Tabu, livro de Freud

Em 1913, Freud publica o livro Totem e Tabu, em que busca investigar as relações sociais dos diferentes povos primitivos, como os polinésios e as suas relações com o tabu. O tabu surge em um clã e pode ser relacionado a ideia de culpa, quando desrespeitado.

A depender do povo em questão, não poderia existir casamentos entre pessoas do mesmo clã, por exemplo. Outro fato curioso, era a proibição, em alguns clãs, de mencionar o nome de um membro falecido, podendo ter o seu nome substituído durante os chamamentos.

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    Um dos argumentos era evitar assombrações e pragas no mundo dos vivos, as chamadas maldições. Dessa forma, o conceito de culpa foi introduzido em diferentes povos de forma diversificada e sem uma origem específica.

    Além disso, a obra aborda o conceito do totem, tido como um ser protetor, que se fazia presente nos diferentes clãs. Era visto merecedor de profundo respeito as regras fundamentadas. Poderia ser a representação de um animal místico, uma carranca, uma árvore pintada, ou seja, elementos de arte local.

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    A arte como descoberta do ser humano e de seu inconsciente

    Logo, desde o estabelecimento do totem, das pinturas rupestres, dos quadros de Van Gogh, da ópera e do mármore esculpido meticulosamente, o homem utiliza a arte para descobrir a si mesmo. Na buscar de ouvir o que existe dentro de si mesmo.

    Ou seja, dando voz ao inconsciente, o processo de traçar um caminho de liberdade consigo mesmo é facilitado.

    Por isso, mesmo como áreas distintas do conhecimento, a arte e a psicanálise apresentam uma linha tracejada, no afã de nos conhecermos de forma mais profunda, em todas as instâncias da nossa mente.

    Destaco a importância da abordagem psicanalítica contemporânea, que permite uma relação com mais humanidade no processo terapêutico, facilitando a construção de um vínculo de confiança.

    Assim como as grandes caravelas abriram o conhecimento sobre a existência dos diferentes continentes, a psicanálise nos revela a oportunidade de conhecermos o nosso lugar de fala interior. Finalizo, citando uma das letras que aborda de forma tão poderosa, a importância do encontro consigo mesmo, do nosso mestre, o Cartola: “Deixe – me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, sorrir para não chorar, se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar, depois que eu me encontrar.”

    Referências Bibliográficas:

    Fochesatt (2011). A cura pela fala. Estud. psicanal. [online], n.36, pp. 165-171.

    Freud (1913). Totem e Tabu. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud.

    Mezan (2007) Que tipo de ciência é, afinal, a psicanálise? Natureza Humana, n.9, pp. 319-359.

    Este artigo sobre Arte e Inconsciente foi escrito por Clariana Lima André, bióloga, ecóloga, mochileira e estudante de psicanálise. A mulher que ama papos filosóficos, regados a um café, e a um litrão. Aprecio boas cias, pessoas simples e macramê. Além disso, sou apaixonada pela natureza e animais. Cães, em especial, e as orcas, mesmo elas sendo levadas.

    4 thoughts on “Arte e Inconsciente: uma linha tênue

    1. Parabéns Clari!!!!!! Sempre foi extremamente inteligente e dedicada no que faz. Se não fosse minha amiga, seria minha psicanalista!!!!!!!!!!

    2. Muito bom texto, parabéns! Precisamos nos conhecermos cada vez mais. Para que possamos nos relacionarmos com as outras pessoas!

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