melancolia

A era em que vivemos não mostra a melancolia que sentimos

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Neste texto abordaremos o tema melancolia e como ela nos afeta atualmente. Vivemos em um estado de hiperatividade e podemos percebê-la em todos os cantos: no anúncio da tv, nas mídias sociais, no outdoor da nossa rua ou no dia a dia do nosso trabalho.

Vivemos 24h – inclusive enquanto sonhamos – sendo bombardeados de informações. Seja o comercial que faz a gente pensar se realmente precisamos comprar uma Air Fryer, ou um novo meme do qual todos estão falando.

Entendendo como a melancolia nos afeta

A bagunça que se tornou nossa existência é difícil de traduzir em palavras, mais difícil ainda é senti-la, e sair dela ileso e na plenitude emocional. A era narcísica se mostra ainda mais forte no século XXI: o Instagram mostra vidas perfeitas, corpos e rostos belos, pessoas viajando e aproveitando cada minuto do seu dia, enquanto você que assiste aos stories alheios vive imerso no seu mundo simples e monótono.

Ao abrir o Linkedin – principalmente se você está em busca de uma novo emprego -, o bombardeio continua: profissionais felizes, bem pagos, sucedidos e trilhando um caminho de sucesso. Como até a busca por uma nova posição profissional se tornou tão sufocante? É difícil se sentir pertencente, feliz e satisfeito com nossas vidas quando tantos exemplos de perfeição e tantas outras informações irrelevantes insistem em bater na nossa porta.

Uma das características da nossa sociedade é a hiperatividade (Lipovetsky, 2004) e a falta de tempo é objeto principal nesse contexto. Precisamos dar conta de tantas coisas durante a nossa semana que não é incomum vivermos aguardando o fim dela. A tal felicidade de final de semana tem dia e hora para acabar – domingo quando começa o Fantástico.

Melancolia e a falta de tempo

Não temos mais tempo de refletir, de pensar, de tomar decisões acertadas e com tranquilidade. Tudo é instantâneo, efêmero. Como diz o filósofo Bauman, vivemos tempos líquidos. Não há tempo para chorar o luto por ter perdido um ente querido, não há mais tempo para sentir a mágoa, a angústia, a depressão. Ao menor sinal, tome um remédio – é natural, eles nos dizem. Engana-se quem pensa que o luto se baseia apenas na morte.

Ele pode ser vivenciado de diversas formas: na perda de pessoas, objetos, momentos, relações, trabalhos. A forma como lidamos com essas perdas vão direcionar a nossa saúde mental. Um luto mal desenvolvido pode acarretar um estado profundo de melancolia. A melancolia por sua vez quando não sentida, entendida ou acolhida, pode desenvolver um estágio severo de depressão.

A tristeza virou artigo de luxo – você não pode ter tempo de sofrer. Engolir o choro é a tática mais comum em ambientes de trabalho, nas redes sociais, no consultório do dentista. A que custo emocional estamos conseguindo manter esse estado de eterna perfeição, escondendo os sentimentos humanos?

Crianças e o futuro da humanidade

A infância das nossas crianças é o que define o futuro da humanidade. Uma criança imersa desde o seu nascimento em um ambiente hiperativo, tem grandes chances de se tornar um adulto neurótico, que desenvolverá fobias, obsessões, melancolia ou depressão. Não é à toa que o número de depressivos tem aumentado consideravelmente nos últimos anos, tornando a depressão como a doença do século 21. Segundo (Mendes, 2013), a melancolia é uma patologia narcísica, mas também um sintoma de uma sociedade que supervaloriza o individualismo.

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Enquanto vivemos em uma sociedade que nos obriga a consumir, comprar, acumular – não temos a oportunidade de vivenciar o perder. A elaboração da perda é importante no processo do luto e da melancolia. Ao perder parte importante de nós ou de algo projetado no outro, precisamos entender o impacto daquela cisão na nossa vida. É aí que entra a importância, mais uma vez, da psicanálise. Ao entendermos a fundo o indivíduo, conseguimos contextualizar o ambiente em que ele vive.

Lidar com as frustrações do dia a dia, com a eterna falta de tempo, elaboração de perdas e vivência do luto são fases importantes de aprendizagem do nosso próprio eu. Na maioria das vezes essas facetas vivem na escuridão do nosso inconsciente e, se não tratadas, correm o risco de trazer problemas emocionais que nos atormentarão para o resto das nossas vidas.

Conclusão

É importante entender e aceitar a sociedade em que vivemos, mas com cautela e desprendimento para saber que tudo precisa de tempo: de acolher suas angústias, seus medos e suas perdas. De viver o presente com a serenidade do entendimento de cada dificuldade que precisamos passar. De curar por meio da nossa fala, as doenças que existem no nosso inconsciente.

Por isso, se você teve tempo (!) de ler esse texto até aqui, quero te fazer um convite – viva com mais calma. E quando eu digo isso, é para você desacelerar. Olhar o mundo lá fora, sair do piloto automático e perceber tudo que está ao seu redor. Tempo é o nosso bem mais precioso e, se a gente não perceber isso enquanto ainda o tivermos em mãos, será tarde demais.

O presente artigo sobre a melancolia na era em que vivemos foi escrito por Maria Eugênia, ou para simplificar: Maria. Formada em publicidade e propaganda, com bagagem profissional na área de comunicação e marketing. Desde sempre interessada pelo comportamento humano, tenta diariamente se auto-entender e compreender o mundo que a cerca. Curiosa, apaixonada pela vida, pela praia, família, amigos e seus 3 gatinhos.

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    One thought on “A era em que vivemos não mostra a melancolia que sentimos

    1. Noutro site, redigi hoje, que o meu celular tem status de telefone fixo: se vou caminhar ou ao supermercado, eu estou nesses compromissos. Mas sabemos que muitos não “se desligam” do celular, mesmo que o “assobio do WhatsApp” Não tenha tocado, isso até em Praça de Alimentação, que a gente percebe casais, casados com os seus próprios celulares! APP só uso quando imposto como o Governo Federal fez para a gente acessar vários serviços ao cidadão, paradoxalmente, há toda uma estrutura física montada para o Recenseamento e Eleições.

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