Entenda como o uso de conceitos equivocados gera confusão e provoca a perda do verdadeiro foco da Psicanálise: o inconsciente.

O que nunca foi Psicanálise: conceitos equivocados e perda de foco

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Este é o segundo artigo da série O que nunca foi, jamais será Psicanálise. Ao longo de quatro textos, estamos analisando relatos, equívocos conceituais, premissas inobservadas e preocupações irrelevantes que confundem a prática clínica. Neste artigo vamos discutir os conceitos equivocados e a perda do foco da Psicanálise: o inconsciente.

Uso de conceitos equivocados

A primeira consideração versou sobre vários conceitos que estão aplicados de forma equivocada. Na Psicanálise temos o “par analítico” (analista e analisando) e não é adequado o termo “paciente” e nem “partilhante” ou “cliente”.

Paciente é o que sofre uma ação e supervisão e segue instruções; partilhante geralmente se reporta, informa os passos do guia que está seguindo à risca. Isso não é psicanálise.

O sujeito da Psicanálise é o analista e o analisando ou analisado, o par, numa relação transferencial cuidadosa e muito ética. O psicanalista não controla, não fiscaliza, não supervisiona o analisando. Não gera planilhas e sistemas de monitoramento e controle.

Não dá o passo e nem regras, muito menos manuais de condutas e guias. Em Psicanálise é o analisando que tem que achar seus caminhos e opções e sair do labirinto pelo autoconhecimento consciente de sua demanda.

Jamais o analista deverá ser “as muletas” do analisado. O analisado não pode se reportar informando se está seguindo ou não uma receita de passos ou manual de guia. O analisado não tem chefe ou líder. Isso não é psicanálise.

Não se usa jamais ritos religiosos na Psicanálise e nem sugestionamento para orar, rezar ou meditar. A Psicanálise não labora com contrato de reencontro e reconciliação de divorciados e nem opera com visão de cliente.

Não se utiliza mentoring e muito menos coaching no setting psicanalítico. Psicanálise não se envolve com pacotes de combos turísticos e nem leva analisando em museus. Não utiliza livros de autoajuda. Requer leitura focada, mas não tem seu lastro só em referências consagradas e celebridades.

Não está jamais atrelada a psicofármacos, não se envolve com o trato da insônia (polissonias) e nem indicações estéticas. A chave da Psicanálise não é a libido e nem as fases psicossexuais.

Psicanálise não está num processo de competição neoliberal, muito menos em PNL ou métodos acelerados, não se baseia em horóscopos e nem astrologias. Isso nunca foi, não é e nunca será prática de Psicanálise.

Este foi um dos feedbacks encaminhado aos autores de alguns relatos e, evidente, gerou um mal-estar. Porém, ficou bem claro que vários operadores de “ciências psi”, que se autointitulam “psicanalistas”, estão confusos. O mais delicado é que estão fora do foco do objeto primordial da Psicanálise, que vamos referir no próximo tópico.

Foco da Psicanálise e objeto central

A Psicanálise é considerada por muitos operadores do “campo Psi” como uma pseudociência ou então uma arte ou ofício, mas jamais uma ciência. Outros discordam, pois o tema não é pacífico.

Entretanto, ignoram que a Psicanálise tem seu objeto, tem seu sujeito, tem sua caixa de ferramentas ou instrumentos e tem seu campo de aplicação.

O objeto da Psicanálise é tão-somente, mas não exclusivo, o inconsciente. Ego e Superego não são o foco prioritário da prática em consultório e clínica da Psicanálise, são de outras áreas, em que pese integrem as funções mentais.

O sujeito é o par analítico (analista e analisando ou analisado). A caixa de ferramentas ou instrumentos é seu método, sua teoria, suas técnicas, seus conceitos e definições. O seu campo de aplicação são pessoas que compõem comunidades e sociedade.

Muito importante destacar e frisar: a Psicanálise não está direcionada na ótica da competição mercadológica. Ela não compete com nenhum campo do saber.

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Para acessar o inconsciente, cada operador tem o seu referencial, desde o clássico Freud até a linguística de Lacan. Existem várias formas de acessar o inconsciente.

Sigmund Freud (1856–1939) não inventou e nem criou o inconsciente. Ele sistematizou a teoria do inconsciente e apresentou o seu método de acesso através da associação livre, sonhos, lapsos, entre outros. Ele é um clássico ainda tremendamente atual.

Operar o que denominamos de Psicanálise fora do seu foco — o inconsciente — é não exercer esse “múnus”. O profissional estará deslocado e confuso. Essa prática poderá redundar em sujeitos tendenciosos e unilaterais, do pensamento único, que vamos examinar no próximo artigo.

No próximo artigo da série, vamos analisar os sujeitos tendenciosos, unilaterais e as premissas inobservadas que geram distorções na prática clínica.

Este artigo foi baseado no artigo da aluna Elane Cristina De Araújo, originalmente apresentado sob o título: “Neurose /Psicose e Perversão”.

Parte 1: O que nunca foi Psicanálise: relatos de equívocos na prática clínica

Parte 2: O que nunca foi Psicanálise: conceitos equivocados e perda de foco

Parte 3: O que nunca foi Psicanálise: premissas inobservadas e distorções na clínica

Parte 4: O que nunca foi Psicanálise: preocupações irrelevantes e pesquisa crítica

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