O que significa Perversão na Psicanálise

O que significa Perversão na psicanálise

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Perversão é o desvio desvia do que se considera uma finalidade normal da sexualidade, na visão de Freud e da origem da Psicanálise. Vamos ver que, na atualidade, esta definição envolve questões morais, ideológicas e jurídicas, trazendo incertezas sobre o que significa perversão frente a uma ideia tão questionável de normalidade.

Hipótese para um olhar diferenciado à Perversão

Como se sabe, em toda sua vida, Freud buscou compreender a mente humana; como a estrutura psíquica se organiza e desenvolve-se ao longo da vida do sujeito. Pai da Psicanálise, genial, promoveu todo um “percurso” psicanalítico embasado em uma teoria, na prática clínica, na introspecção de pensamento, a fim de revolucionar todo um constructo que não se esgota!

Assim, o próprio Freud denomina a psicanálise como terceira ferida narcísica que

  • corroborou ao desenvolvimento e compreensão do humano;
  • porquanto Freud propõe uma complexa organização psíquica;
  • formulando que, cada indivíduo dispunha de uma determinada (e predominante) subjetividade, o que confere à psique uma forma de funcionamento, com suas defesas específicas, modos de interagir com o mundo e o meio em que vive, modos de satisfação e de sofrimento, entre outros.

Perversão, Neurose e Psicose

Freud elenca, basicamente, três mecanismos de organização psíquica, que ficaram conhecidos como neuroses, psicoses e perversões.

Necessário ainda, considerar que Freud “organiza” o desenvolvimento psicossexual em cinco fases:

  • fase oral,
  • fase anal,
  • fase fálica,
  • período de latência e
  • fase genital.

No intuito de focar no tema deste artigo, preponderante considerar a fase fálica.

Segundo Zimerman (1999): “Com duração do terceiro até o quinto ou sexto ano de vida, essa fase concentra-se no falo (sendo o falo, na antiguidade greco-romana, a representação simbólica do poder, concentrada no órgão anatômico: pênis)”.

Observa-se ainda que, nesta fase, as fantasias porventura mal elaboradas provenientes em especial, do meio familiar, segundo Freud, podem conduzir ao desenvolvimento psicopatológico da perversão, através do “mal resolvido” Complexo de Édipo.

O que significa Perversão: Fase Fálica e Édipo

O Complexo de Édipo “designa o conjunto de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta com relação aos seus pais” (ZIMERMAN, 1999).

O principal objetivo deste artigo, mesmo que despretensioso, pela humildade que o conduz, é propor um “olhar” diferenciado à perversão.

Talvez até “desafiar” a que este “olhar” não esteja, em termos de sintomas, vinculado somente à questões referentes a desvios sexuais, mesmo que neles (nos desvios sexuais mal elaborados e originados na infância) tenham sua origem, mas não todos os sintomas quando eles – os sintomas – surgem.

Recorrendo a Zimerman (2004), “o tema perversão é controverso e polêmico porque, além da conceituação clássica de que se refere um transtorno que desvia os fins da sexualidade normal, ele também implica, na atualidade, questões morais, éticas, ideológicas e jurídicas”.

É possível, até simples e fácil, que se conheçam pessoas, inclusive de idade mais avançada, nas quais os sintomas surjam produzindo outros “desvios” (por exemplo, éticos, sociais e ideológicos) que não implicam (os sintomas) somente na abrangência sexual.

Eis, portanto, hipótese a considerar: não seriam também sintomas da perversão este desvio, este desvirtuar, esta oposição à normalidade (à verdade, talvez?), este desafio ao dito habitual social ou ideológico?

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Direcionamento e Fixação da Libido

Na introdução deste artigo cita-se que, Freud organiza o desenvolvimento psicossexual nas fases oral, anal, fálica, latência e genital. E, dependendo do modo como este desenvolvimento se dá em termos de subjetividade, a psique humana pode desenvolver três mecanismos de “organização”:

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    Segundo Zimerman (1999), “a estes diferentes momentos evolutivos impressos no psiquismo, Freud denominou pontos de fixação, em direção aos quais o sujeito pode fazer um movimento de regressão”.

    Ainda segundo o mesmo autor “os pontos de fixação formar-se-iam a partir de uma exagerada gratificação ou frustração de uma determinada zona erógena, respectiva a cada uma destas fases evolutivas.”

    Assim, para entender o que significa a perversão é importante compreender o contexto em que Freud propôs os chamados hábitos sexuais atípicos, conhecidos como parafilias. Para Zimerman, “é nesse contexto que Freud vai tecer suas ideias sobre os desvios sexuais, ou perversões, tais como fetichismo, masoquismo, sadismo, narcisismo, voyeurismo, pedofilia, entre outros, como forma de discutir a dinâmica o direcionamento e fixação da libido.

    A perversão, o objeto e o objetivo do prazer

    Nesse sentido, o objeto sexual (alvo do prazer) e o objetivo (ato que visa o instinto sexual) são, por algum motivo, desviados em relação ao “ato sexual normal” (obtenção de prazer por penetração genital, como uma pessoa do sexo oposto).”

    No entanto, nesta mesma referência, com maestria, é citado:

    “a psicanálise é um campo do saber em constante atualização, sinta-se chamado (a) a produzir novos conteúdos na forma de livros, artigos, palestras etc., a partir de suas vivências como estudante, terapeuta ou futuro terapeuta”.

    Assim, recorrendo ao próprio pai da Psicanálise em Freud (ESB, v. XVIII, p. 308, 1920 -1922), tem-se: “a libido é essencialmente de natureza sexual, apesar de poder ser dessexualizada no que se refere ao objetivo, e é por ele concebida como manifestação dinâmica na vida psíquica de pulsão sexual”.

    Entende-se aqui, segundo o objetivo deste breve trabalho, a extrema necessidade de se recorrer também à etimologia (da linguística: estudo da origem e da evolução das palavras) da palavra perversão.

    O que significa Perversão, afinal?

    “A palavra perversão deriva de (per + vertere), que quer dizer: por às avessas, desviar, desvirtuar… O vocábulo designa o ato de o sujeito perturbar o estado natural das coisas, de modo que, com sua conduta, oposta à normal, desafia as leis habituais, consciente de que, com seus atos, ultraja seus pares e a ordem social na qual está inserido” (ZIMERMAN, 2004, p. 267).

    Ora, parece, portanto, bastante desafiador “pensar” a perversão, na atualidade, também como uma conduta que possa abranger outros desvios, tentativas do sujeito de agir às avessas, desvirtuar e perverter a verdade dita normal!

    Neste contexto, há outra citação de Zimerman (2004, p. 267) bastante pertinente:

    “ para muitos autores, o conceito de perversão, nos dias de hoje, foi estendido, dentro e fora da psicanálise, para uma abrangência que inclui outros desvios que não unicamente os sexuais, como seriam os casos de perversões morais […], sociais […], alimentares […], institucionais […]”.

    Neste trabalho percebeu-se que, muitos (ainda poucos) autores buscam compreender melhor, assim, o termo perversão; sob, também, uma nova ótica de pacientes com características sintomáticas bem tipificadas e comuns entre eles, nas quais os sintomas, nem sempre, ao surgirem, denotam desvios ou desvirtuações sexuais.

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    Significado de Perversão e sua diferença com Perversidade

    Ainda, segundo Zimerman (1999), um fato essencial para entendermos o que significa perversão, é que, se deve “levar em conta que, essa denominação – perversão – tem o inconveniente de estar impregnada de ‘pré-conceitos’, especialmente de ordem moral e ética, o que nem sempre leva à seriedade e à profundidade com que tais pacientes merecem ser compreendidos e analisados”.

    Por fim, nesta breve revisão, deve-se enfatizar algo que se pode considerar uma “injustiça” proveniente de pouca informação e errônea conceituação. Trata-se de distinguir perversão e perversidade!

    “O primeiro alude a uma estrutura que se organiza como defesa contra angústias persecutórias, depressivas e, especialmente de desamparo, enquanto a outra refere-se a um caráter de crueldade e de malignidade. Assim, na perversão, o sujeito não busca primariamente a sensualidade; antes se comporta como uma válvula de escape para provar a si e aos outros, que superou as angústias mencionadas” (ZIMERMAN, 2004, p. 267).

    Propõem-se, portanto, de maneira breve, desafiadora, humilde, mas consistente que, nós psicanalistas nos debrucemos mais sobre tal desenvolvimento da subjetividade, buscando um novo olhar sobre o mecanismo da organização da perversão. Um “olhar” diferenciado em prol daqueles que desenvolvem tal “mecanismo psíquico” e precisam de compreensão diferenciada!

     

    Referências bibliográficas

    FREUD. S. ESB, v. XVIII, 1920-1922. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

    ZIMERMAN. David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.

    _________. Manual de técnica psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2008.

     

    Este artigo sobre o que significa perversão e a proposta de um olhar diferenciado ao tema, a partir das contribuições de Freud, Zimerman e a Psicanálise, foi escrito por Marcos Castro, Psicanalista clínico, pesquisador, professor, escritor, palestrante. Residente em Ouro Fino – Sul de Minas Gerais (MG); contato: Instagram – @marcos_castro_castro.

     

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