livre associação

Livre Associação: o que é, qual o xis da questão?

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Hoje falaremos sobre a livre associação. Apesar de muitas pessoas ainda as confundirem, sob o ponto de vista dos métodos utilizados, a Psicologia e a Psicanálise diferem bastante entre si.

Enquanto a primeira utiliza-se de uma gama eclética de teorias e ferramentas para o estudo da mente, a Psicanálise, por sua vez, mantém-se, em boa medida, fiel aos pressupostos freudianos de existência do Inconsciente, e utiliza como principal método de análise a Livre Associação de palavras.

Entendendo a livre associação

Por ser alvo de uma interpretação simplista e despretensiosa, a expressão Livre Associação, muitas vezes, é interpretada “ao pé da letra” não apenas por leigos, mas, até mesmo, por pessoas da área de estudo da mente.

Talvez o mais apropriado quando se trata de definir o conceito inovador estabelecido por Freud, seja parafraseá-lo, denominando-o de Livre Ocorrência, uma vez que é isso que ele propõe como explicaremos a seguir. Para que você entenda melhor o que queremos dizer ao propor o raciocínio acima, é importante lembrar que a nossa mente, de modo inato, possui mecanismos de defesa que compõem a famigerada resistência em psicanálise. E que acessar os conteúdos recalcados que engendram o misterioso tecido do nosso Inconsciente não é tarefa simples ou fácil.

Por isso, falemos um pouco sobre esses processos. Os mecanismos de defesa, como dissemos anteriormente, constituem uma forma de resistência do Ego ao retorno do conteúdo que foi recalcado no Inconsciente. Esse conteúdo, geralmente investido de grande carga afetiva, também denominada de energia pulsional, sofre esse processo de ser “empurrado” para a instância do Inconsciente por representar uma realidade difícil ou dolorosa à mente racional do sujeito, com a qual ele ainda não se sente preparado para lidar.

Desse modo, na tentativa de evitar que esse conteúdo retorne, mesmo após várias sessões de análise, é comum que o indivíduo apresente as seguintes formas de defesa:

Através de cada um desses processos, a nossa mente consciente, representada pelo Ego, tenta evitar o acesso ao conteúdo inconsciente e manter-se dentro da zona de conforto da neurose à qual já está relativamente “acostumado”. É importante lembrar que o analisando não realiza tais dinâmicas de forma intencional, apesar da relação destas com uma tentativa de preservação do Ego. Tudo acontece de forma involuntária e é determinado pelas dinâmicas mentais rotineiras da mente de cada um.

Livre associação e o conteúdo mental latente

Em decorrência dessas e de outras redes intrincadas de construção do conteúdo mental, Freud, em seus estudos psicanalíticos, afirma que o acesso do Psicanalista a esses processos e, consequentemente, ao conteúdo mental latente, só é possível através de três caminhos: os sonhos, por meio da interpretação simbólica do material onírico; a análise dos Chistes e Atos falhos; e a interpretação do conteúdo latente obtida pelo processo de Livre Associação em conjunto com o que, na Psicanálise, se denomina Atenção flutuante. Neste artigo não falaremos sobre a interpretação dos sonhos e nem sobre os Chistes e Atos falhos, pois já foram alvo de reflexão em outros textos de nossa autoria.

Nos interessa aqui a definição teórico-psicanalítica de Livre Associação e Atenção flutuante, sobre as quais discorreremos nos parágrafos seguintes. Propusemos a compreensão do conceito de Livre associação através da expressão Livre ocorrência porque o que Sigmund Freud propunha era que, para o conteúdo latente se revelar através dos padrões simbólicos na fala do analisando, seria necessário que este falasse, durante o momento da análise, tudo o que lhe ocorresse à mente, sem formular previamente reflexões ou censuras sobre esse conteúdo.

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A promoção de uma espécie de racionalização do pensamento antes de sua transformação em discurso, no cotidiano das pessoas, é algo que aprendemos a realizar desde cedo, por meio dos nossos pais/cuidadores. Essa autocensura vai sendo delineada ao longo da nossa vida através das crenças e dos valores que se estabelecem em nosso Superego, de acordo com nossas experiências de vida e com os aspectos sócio-históricos e culturais aos quais todos somos submetidos diariamente.

Conclusão

Entretanto, para que o acesso aos conteúdos recalcados no inconsciente possa efetivar-se ao ponto de o par analítico, composto por analista e analisando, evoluir em direção à superação das neuroses patológicas, é necessário que essa fala, no momento da análise se dê sem censuras por parte do sujeito analisado. Este deve dizer o que se passa em sua mente sem preocupar-se em ser julgado ou em construir raciocínios lógicos e coerentes que visariam atender determinadas crenças ou valores.

Ao mesmo tempo, o analista deve despir-se de suas próprias crenças individuais e subjetivas para praticar a escuta atenta, mantendo, simultaneamente, uma atenção flutuante àquilo que está sendo dito, uma vez que, o seu intuito no momento da análise não é formular nenhum juízo de valor sobre o que está sendo dito, mas sim reconhecer padrões simbólicos e representações mentais recorrentes e que constituem pontos significativos de angústia patológica para o sujeito.

Dessa forma, falar em Livre Associação é também falar sobre o espaço seguro e livre que o momento de análise psicanalítica representa para quem o busca. Consideramos importante reforçar que a Psicanálise implica o próprio sujeito em sua fala, já que acessa aqueles conteúdos mentais que ele tenta esconder até de si mesmo. De modo que a colaboração desse sujeito se torna tão vital para o sucesso do tratamento quanto a própria presença do analista. Vamos pensar sobre isso?

O presente artigo foi escrito por Samantha B. Santos (Instagram: @sbs.santos). Psicanalista em formação. Mestranda em Formação de Professores e Especialista em Educação.

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