terapia com adolescentes

Terapia com adolescentes em psicanálise

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Neste texto vamos falar sobre a terapia com adolescentes e o manejo clínico psicanalítico com adolescentes, suas contribuições e desafios que surgem durante o setting analítico. Vamos falar da terapia com adolescentes em psicanálise.

A análise na terapia com adolescentes é de difícil manejo, inicialmente porque a legitimidade da demanda inicial, ou seja, a procura pela terapia, não parte da vontade do adolescente, e sim de um adulto de sua responsabilidade (mãe, pai).

Entendendo a terapia com adolescentes

Com o desabrochar da adolescência surgirão mudanças hormonais, de humor, psicossociais, conflitos, transformações, tempo de rupturas e aprendizados, de descobrir seus limites, de questionar valores e normas familiares, a busca pela integração social está presente fortemente nesta fase, assim como as angústias, ansiedades e muitas vezes a depressão.

O seguinte artigo tem por objetivo discorrer sob o enfoque psicanalítico, através dos pontos de vista dos autores, os quais citarei, visando o processo de transferência, da relação analista e analisando, abordagem e o manejo do psicanalista, alguns complexos psíquicos que envolvem essa fase tão complexa da vida, a relação pais e filhos e o luto que vivenciam neste momento.

O que é a terapia com adolescentes?

A adolescência é um período de transformação, onde ocorre a metamorfose de um corpo de criança para um adulto sexuado. Múltiplas mudanças físicas, afetivas e sociais, tomam posse de um corpo infantil, o qual, em suma, já era seguro, conhecido e a relação com os pais já estavam estabelecidas, onde haviam proteção, dependência e sentiam-se aceitos.

Ao entrar na puberdade, o adolescente, com as alterações hormonais e morfológicas, precisa redefinir sua identidade psíquica, novas capacidades de sentir, pensar e agir, em relação ao meio em que está inserido, e principalmente em relação aos seus pais.

Pinheiro (2001) lembra que “ a adolescência deve ser entendida, na perspectiva psicanalítica, como um momento de retorno para a questão edípica adiada, não se pode resumir à definição por viés hormonal, metabólico, de mudança física nem como uma faixa etária”. Blós (1995) também contribui com esse ponto, destacando que ” não se podem marcar as diferentes fases da adolescência por critérios temporais ou referências etárias e é exatamente essa extraordinária elasticidade no movimento psicológico que caracteriza a grande diversidade desse período”. Como lembra Blós (1995), ” a puberdade sempre foi reconhecida pelos observadores do desenvolvimento em suas dimensões físicas e psicológicas, em especial pela maturação sexual.

E, por isso, essa fase estaria relacionada de forma direta e casual com as transformações da sexualidade”. Segundo o autor, a partir da investigação e sistematização da primeira infância, houve uma abertura para o entendimento desses aspectos psicológicos da puberdade, os quais são referidos ao se falar em adolescência. Anna Freud, primeira psicanalista a tratar da adolescência como tema específico de investigação, postulava que “a sexualidade está presente na vida do sujeito desde seus primeiros anos de vida, e que é na infância que ele torna seus passos mais marcantes”. Na puberdade, porém, surgem inúmeras contradições e instabilidades emocionais, em virtude da maturação dos caracteres sexuais. Tal fato acaba por ocasionar um enorme desequilíbrio psíquico, tornando difícil a diferenciação entre normalidade e patologia.

Anna Freud e a adolescência

Segundo Anna Freud, o que ocorre na adolescência é um incremento da libido sobre o ID em decorrência da maturação das funções orgânicas, enquanto o Ego encontra-se fragilizado, e a chave da saúde mental encontrar-se-ia no equilíbrio entre essas forças psíquicas que interagem. Entende-se assim, que em virtude desse desequilíbrio é esperada até de forma normal a anormalidade nessa fase da vida.

Referente ao critério cronológico, em relação à adolescência, as definições são diversas, durante a elaboração deste artigo será adotada a faixa etária entre 12 e 21 anos, como propõe o psicanalista David Zimmerman: […] considera-se que a adolescência abrange três níveis de maturação e desenvolvimento: a puberdade dos 12 aos 14 anos, a adolescência propriamente dita, dos 15 aos 17 anos e a adolescência tardia, dos 18 aos 21 anos, cada uma delas com suas características próprias […].( Zimmerman, 2004, p. 357). Há diversos autores na psicanálise que em seus escritos citam a adolescência numa perspectiva mais desenvolvimentista, cumprindo a última etapa da sexualidade, tal como Freud descreve nos “ Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”.

Para esses autores a genitalidade é a grande questão da adolescência, a qual, o adolescente, vai finalmente de encontro com a sexualidade, ou seja, que a anatomia é o destino da pulsão. Para alguns deles, as crises na adolescência, é vista como um desvio no curso normal do desenvolvimento, podendo levar a resultados desastrosos no processo terapêutico, pois as diferentes formas de perceber a questão refletem diretamente no diagnóstico do caso.

Adolescência e o processo de luto

Sobre o luto, o entendemos como um afeto desencadeado pela perda de algo muito importante para o sujeito, bem como sua respectiva elaboração. Freud em seu texto “Luto e melancolia” de 1915, lança as bases para sua compreensão psicanalítica descrevendo processos de identificação, cisão no Eu, bem como a formação de instâncias ideais. Segundo ele, o luto pode ser uma reação a perda de uma pessoa amada ou qualquer abstração que a ela equivalha, como por exemplo: uma ideia, uma identificação, um estado, etc. Diante das transformações advindas com a adolescência, entre outros aspectos, três perdas fundamentais desencadeiam esse sentimento de luto, são elas: a perda do corpo infantil, a perda da identidade infantil e a perda dos pais da infância.

Com relação ao seu corpo, esse jovem precisa se adaptar e se acostumar com ele, é um período de múltiplas mudanças físicas, no foco dessas mudanças está a metamorfose do corpo da criança para o adulto. Enquanto criança o corpo é conhecido, mas ao chegar a tal puberdade, as alterações hormonais e morfológicas demandam novas capacidades como pensar, sentir e agir. Quanto a perda da identidade infantil, ele já não conta mais com toda aquela proteção que antes era dada por seus pais de infância, e essa perda vem com novos direitos e obrigações exigidas.

Quando criança era totalmente dependente de seus pais, porém na adolescência, isso torna-se bastante confuso, pois embora não dependa de seus pais para sobreviver por exemplo, mas cada nova tentativa de desprender-se e tornar-se independente, é acompanhada por medos e inseguranças, podendo ocorrer retrocessos e posturas infantis. Conflitos que se geram pois ele percebe que não é mais uma criança, mas também não é um adulto. E finalmente, quando se fala em perda dos pais da infância, é quando o adolescente deixa de enxergar seus pais como figuras heroicas e os vê como figuras humanas, como seres também castrados, imperfeitos, com ideias distintas as suas, não mais os donos da razão, ao contrário de como eram vistos pela criança como seus heróis.

Relações intersubjetivas reais e fantasmáticas

Vale ressaltar que não se trata de uma morte real dos pais, mas sim a morte de suas imagos até então cultivados pelos filhos, enquanto crianças. Laplanche e Pontalis (1983) definem imago como sendo a forma como o indivíduo apreende o outro, e “é elaborado a partir das primeiras relações intersubjetivas reais e fantasmáticas com o meio familiar”. Assim dizendo, imago trata-se de uma representação simbólica inconsciente do que o outro é ou significa para o sujeito, e é nesse sentido que os filhos têm de lidar com a perda dos pais. Frente ao novo que lhes apresenta, os pais, também necessitam elaborar o luto decorrente da perda de seu filho enquanto criança, da sua relação de subordinação, dependência e o processo de a aceitação do fato de não serem mais os ídolos de seus filhos, os quais eram tanto admirados por suas crianças.

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    Neste momento é necessário reinventar um lugar que lhes cabe como pais, primeiramente para poder vivenciar o luto que lhes cabe. A forma de interagir com o filho com certeza é muito diferente de quando ele era uma criança, mudará a abordagem de como referenciar a eles seus direitos e deveres, as regras e normas familiares estarão de acordo com os valores e o meio em que estão inseridos. A autonomia e o distanciamento do adolescente em reação aos pais estão muito presentes nesse momento, e devem ser guiadas pelos mesmos, pois são eles os responsáveis em fornecer suporte e seguro. Muitas vezes, os pais se colocam numa posição de ressentimento e acabam reforçando sua autoridade ao se depararem com atitudes de desdenho, ambivalência e desprezo de seus filhos, achando –se descartáveis ou desnecessários, já que seus filhos recusam a ouvi-los.

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    Mas é necessário ressaltar que esse desdenho e desprezo configura-se como uma defesa frente ao difícil processo de desprendimento das partes infantis, e deve ser visto como um juízo de valor a ser respeitado. Em contrapartida, alguns pais podem desenvolver um comportamento mimetizado com os seus filhos, que sob a desculpa da amizade, acabam por se comportar como um adolescente. Quanto a esse comportamento inapropriado de querer ser novamente um adolescente, e a esse caráter de amizade, deve ficar claro que não devemos ser amigos de nossos filhos: devemos sim ser pais.

    A comunicação entre pais e filhos

    Esse distanciamento é bem-vindo aos jovens, por ser normal e natural. O papel da comunicação entre pais e filhos nesta fase é de fundamental importância, se há uma boa relação desde a infância, ou seja, é a qualidade dos laços antes criados que dará suporte para uma saudável resolução de conflitos na adolescência. Os pais precisam se distanciarem, mas nunca se anularem.

    Pais e filhos precisam reconhecer seus novos papéis e devidos lugares. Dar suporte ao filho é fundamental para que ele transpasse essa fase de descobertas e conflitos e consiga se desprender, conquistando mais do que a sua nova identidade, além disso seu lugar enquanto sujeito no mundo.

    Lidando com as emoções e os sentimentos na adolescência

    A adolescência é um período que revela as falhas e fraquezas estabelecidas nos primeiros anos de vida, que até então estão ocultas no inconsciente. Isto vem à tona na adolescência, onde é exigida a separação dos pais e de seus representantes internos. O adolescente muitas vezes é incapaz de lidar com seus sentimentos e pensamentos passando a expressá-los através de sintomas corporais ou ações físicas. A psicanálise atual, que tem buscado um novo olhar sobre as patologias, focalizando no modelo relacional e não mais o do conflito pulsional, passado dessa forma a ganhar ênfase para a psicanálise a qualidade das relações primárias entre a criança e sua mãe e seus comprometimentos.

    Isto nos leva a considerar as contribuições das pesquisas que vêm analisando a depressão na adolescência na perspectiva da Teoria do Apego, em sua vertente psicanalítica. Ainsworth (1989) define ”o vínculo como um laço relativamente durável em que o parceiro é importante como indivíduo único e não pode ser trocado por nenhum outro. Num vínculo afetivo, existe o desejo de manter uma proximidade com o parceiro”. Já o apego segundo Ramires e Schneider (2010) refere-se a uma subvariedade dos vínculos afetivos, em que o sentimento de segurança depende do relacionamento estabelecido com a figura de apego psíquico. É a partir deste relacionamento que a criança utiliza a figura de apego, geralmente um dos genitores, como uma “base segura” que lhe conferirá confiança para explorar o mundo.

    Tanto o vínculo afetivo como o apego são estados internos, observados na terapia com adolescentes apenas através dos comportamentos de apego, que se referem a todos aqueles atos manifestados pelo indivíduo a fim de manter próxima a figura de apego. A Teoria do Apego contribui para um entendimento mais aprofundado, acerca dos contextos familiares, dos vínculos afetivos e suas relações com o surgimento da psicopatologia depressiva no adolescente. Através dela é possível permitir identificar uma associação importante entre o estabelecimento de um padrão de apego inseguro na infância e o desenvolvimento da depressão na adolescência.

    O afeto depressivo e a terapia com adolescentes

    O afeto depressivo pode ser experimentado na adolescência, pois é nesta fase que os lutos concernentes às perdas da infância são elaborados:

    • sentimentos de infelicidade,
    • mudanças no comportamento,
    • retardo psicomotor,
    • sono alterado,
    • desmotivação,
    • déficit no desempenho escolar,
    • irritabilidade,
    • instabilidade emocional,
    • baixa autoestima,
    • ideias suicidas,
    • entre outros sentimentos que podem estar presentes no cotidiano dos adolescentes.

    Espera-se que tais manifestações sejam superadas, já que as perdas relacionadas à adolescência, geralmente não estão ligadas a um trauma real; tais perdas apontam para um espaço na constituição do eu, na estruturação do sujeito.

    A depressão, portanto, corresponde ao conceito de luto (luto às perdas infantis), sentimentos que expressam tristeza vivenciados pelos adolescentes não deve ser necessariamente considerada uma experiência negativa, mas uma elaboração necessária e positiva. Porém, nem sempre essa elaboração é possível, e define-se como melancolia, o luto impossível de ser superado.

    Consideram-se quatro aspectos na caracterização do conceito de depressão na adolescência:

    1. É um estado presente em qualquer estrutura, nem toda manifestação de tristeza ou alteração no comportamento é uma manifestação patológica;
    2. É constitutiva do psiquismo e é da estruturação do sujeito;
    3. Funciona como uma defesa do psiquismo;
    4. Deve ser concebida como um luto, no sentido psicanalítico do termo, o qual certo lapso de tempo deverá ser superado e a libido reinvestida em outros objetos.

    Em síntese, a depressão pode ocorrer como uma resposta aos desafios da adolescência, de mecanismos múltiplos, como o luto a ser superado, como uma perda irreparável que recai sobre o próprio ego, o ego melancólico. Toda a perda sugere uma elaboração, e requer tempo para que seja elaborada, pois segundo Rassial (1997) “o trabalho de triplo luto da adolescência, impõe ao jovem realizar uma série de operações fundadoras, que após o complexo de Édipo, implicam num encontro com os verdadeiros limites de uma onipotência infantil supostamente preservada durante a fase de latência”. Somente assim, a constituição do psiquismo prossegue, caracterizando a depressão ou o luto como uma reestruturação defensiva do aparelho psíquico.

    A subjetividade

    Além das questões relacionadas às mudanças fisiológicas, os adolescentes confrontam também com as questões que dizem respeito à subjetividade, estando em jogo tanto as questões que envolvem o encontro com o sexual, onde é convocado a posicionar-se frente a partilha dos sexos, como a separação do Outro. Nesta reedição de separação, efetuada primeiramente através da inscrição do significante Nome-do-Pai, onde o sujeito é convocado a fazer as suas escolhas, tornando-se responsável pelas suas ações.

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    Diante desse contexto, os sujeitos são confrontados com situações que geram angústia e frustrações, onde os mesmos possuem um baixo poder para tolerar tais frustrações. Muitos sujeitos ao depararem-se com o fracasso, sentem essa angústia como algo insuportável, passando ao ato de cometer violência e/ou agressões ao próprio corpo, como é o caso das escarificações. A escarificação é um fenômeno que exige muita pesquisa e reflexão, em função do crescente número de adolescentes que cortam o próprio corpo atualmente.

    Além de verificar a incidência deste fenômeno, faz-se necessário a investigação dos fatores que contribuem para a escolha desta prática na terapia com adolescentes, entre eles a impossibilidade da relação sexual; e por sentirem-se incapazes de solucionar problemas, muitas vezes estes vindo da relação parental. Essa automutilação é definida como todo ato que envolve a intenção de um indivíduo modificar ou destruir por vontade própria, uma parte do tecido do corpo, sem ter a intenção de cometer o suicídio através deste ato. Chassaing afirma que: […] as marcas do corpo são um modo de afirmação, marcas de um desejo e de uma erótica, inscrição no real do corpo onde a afirmação prescindiria da linguagem. O corpo é apropriado para entregar uma afirmação individual ao olhar do outro […].

    O gozo fálico e o desejo

    Se o gozo fálico é fora-do-corpo, as marcas do corpo estariam “fora-da-linguagem”? Não é surpreendente que elas “agarrem” os adolescentes, eles que têm tanta dificuldade com a linguagem e com o desejo, eles que são tão tomados pelas transformações de seus corpos. Estas marcas não têm valor de significantes, elas não são os equivalentes deles […] As marcas […] são evitamento do fálico, evitamento da castração […] (CHASSAING, 2004, pp.164-165).

    As profundas transformações vividas pelo adolescente, provoca nele um sentimento de inquietação, ele sente-se desajeitado, sem controle de seu corpo, questões hormonais, receios que sente em relação à sexualidade, a vida profissional, baixa autoestima, a separação dos pais, mudança de amigos para outra cidade ou escola, falta de apoio familiar, bullying, vivência em ambientes estressantes e a incapacidade de lidar com as frustrações também podem colaborar para o surgimento da ansiedade.

    Os adolescentes ansiosos tendem a não querer frequentar determinados lugares, ou participar de atividades sociais, tendem a se isolar, pois sabem que ficarão tensos, aparentam desânimo na maior parte do tempo. A ansiedade na adolescência apresenta sintomas semelhantes à ansiedade na vida adulta, porém devido ao baixo alcance emocional os adolescentes tendem a lidar com eles de maneiras distintas. A ansiedade pode interferir na aprendizagem e na rotina escolar, comprometer a relação com o grupo de pares, acentuar os conflitos familiares, e conduzir ao isolamento do adolescente.

    Na terapia com adolescentes, o adolescente pode desenvolver ataques de pânico ou fobias, apresentar comportamentos de risco consumindo álcool ou drogas, ter um comportamento sexual impulsivo, como tentativas para negar os seus medos. A ansiedade é uma emoção frequente, sinal de alarme, perante situações que podem constituir uma ameaça.

    Os sintomas típicos da ansiedade são:

    – preocupação excessiva, especialmente com coisas pequenas;

    – fadiga, sonolência diurna;

    transtornos do sono e dificuldade para dormir;

    – dores musculares inexplicáveis;

    – perda de apetite ou apetite excessivo, causando perda ou ganho de peso;

    – falta de ar;

    – apreensão constante com o futuro;

    – dificuldades de socialização;

    – autoestima baixa;

    – roer as unhas, arrancar cabelo, pele dos dedos;

    – desatenção, ou perda da memória;

    – perda de interesse por hobbies e atividades que antes gostava;

    – tristeza.

    A ansiedade e a terapia com adolescentes

    É muito comum os adolescentes se afastarem dos pais e amigos, geralmente se recusam a falar sobre suas aflições. Dessa forma, é importante que os pais estejam atentos ao comportamento dos filhos, para que possam buscar tratamento psicológico no momento adequado. Os pais podem ajudar os filhos que sofrem de ansiedade para que encontrem o bem-estar emocional, para tal, é preciso que tenham paciência e perseverança, uma vez que os filhos podem se demonstrar indispostos a cooperar nas primeiras investidas.

    É preciso muita cautela na terapia com adolescentes, pois a negligência com os sintomas pode agravar o estado psicológico do adolescente, causando outras condições como o transtorno de pânico e fobias, como já mencionado, assim como a estimulação a pensamentos suicidas. Lembrando que, o suicídio é a terceira causa da morte de adolescentes entre 15 e 19 anos. Dessa forma, é importante que os pais estejam atentos ao comportamento dos filhos, para que possam buscar tratamento psicológico no momento adequado.

    O manejo clínico de adolescentes

    Pais e filhos vivem um processo angustiante e confuso, já que, deparam-se com questões referentes à separação, diferenciação, alterações de lugares e papéis na vida familiar, frustrações e finitude. A eclosão de emoções e dúvidas geralmente não são bem processadas durante a puberdade, adolescentes reagem intensamente às decepções, erros, vitórias, realizações, e relacionamentos e quaisquer situações comuns da vida, não porque são dramáticos, mas sim porque o sistema límbico, que é o grande responsável pelas emoções, ainda não está totalmente formado. Por conta disso, uma simples pergunta é capaz de aborrecer ou magoar, um comentário poderá ser mal interpretado.

    Eventos pequenos podem tomar proporções gigantescas e fugir do controle. Reações exageradas podem ser silenciadas pelas famílias por serem desagradáveis, porém, a repressão emocional poderá transformar um adolescente grosseiro em um tranquilo, mas não significa que será saudável. A psicanálise na fase da puberdade concede através da terapia, esclarecimentos muito necessários para lidar com o turbilhão de emoções e as mudanças incessantes. Diante da associação livre, regra fundamental da psicanálise, e em conjunto com o paciente, o psicanalista deve identificar gatilhos emocionais, sintomas debilitantes da ansiedade, angústias do adolescente e possíveis causas de medos constantes, buscando a maneira mais adequada de tratamento, conduzindo o próprio paciente a compreender suas emoções e como suas ações são capazes de afetá-lo, passando assim, a responder melhor ao tratamento.

    Diante da associação livre, regra fundamental da psicanálise, o analista deve estar advertido para não responder do lugar do grande Outro, possibilitando assim a implicação do sujeito no seu sintoma e o aparecimento do desejo. Afinal, o objetivo da psicanálise, enquanto dispositivo de fala é interrogar o sujeito sobre seu gozo. Ao tratar do sintoma, Jacques Lacan (1974-5) enfatiza que só podemos defini-lo “pelo modo como cada um goza do inconsciente, na medida em que o inconsciente o determina”. Soler pontua que: […] a presença do desejo em si é a presença de algo que falta na fala. É a presença de alguma coisa que está sempre atrás da fala, mas que não pode ser sempre traduzida numa demanda precisa. É por isso que Lacan diz que o desejo é metonímia, algo que desliga na fala, mas que é impossível de capturar (SOLER, 1997, p. 63).

    A terapia com adolescentes em Psicanálise

    É de suma importância, para o psicanalista na terapia com adolescentes, compreender a dinâmica familiar e as opiniões dos pais para um melhor acompanhamento do adolescente, por isso, os pais podem ser convidados a participar de algumas sessões, tanto em grupo como individualmente. Durante as sessões de psicanálise na terapia com adolescentes o analista deverá estar atento e conduzir o paciente na identificação de traços de personalidade, hábitos e comportamentos que podem estar gerando sofrimento, o ato de se autoconhecer, neste momento é acolhedor quando se descobre as razões de agir e de pensar de determinada maneira. Deverá instigar a reflexão sobre as emoções, pois o desenvolvimento da inteligência emocional na adolescência, garante uma descoberta mais tranquila nesta fase, além de preparar o adolescente para uma vida adulta mais centrada.

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    Como a vida social é muito importante para a maioria dos adolescentes, a terapia pode ajudá-lo a evitar conflitos e a compreender o seu papel neste contexto. Por meio de gestão de emoções e da mudança de hábitos negativos, o adolescente consegue enfrentar as pressões extremas, enquanto cuida da saúde mental, sendo a análise um antídoto para o excesso de estresse e ansiedade do dia-a-dia. Desenvolver o amor próprio e autoconfiança em adolescentes podem levar alguns meses, já que costumam ser monossilábicos nas primeiras consultas, geralmente se soltam diante do psicanalista no decorrer das sessões. Verificou-se que a clínica psicanalítica com adolescentes é repleta de desafios, situações inesperadas e fatores surpresas.

    Sobretudo, é necessário apreciar e aperfeiçoar-se nessa faixa etária carregada de particularidades, considerando o já célebre tripé da formação psicanalítica proposto por Sigmund Freud. No decorrer do ofício cada profissional deverá desenvolver de forma única um estilo de manejo clínico, cumprindo e respeitando as regras e técnicas que regem a clínica psicanalítica e o exercício da profissão. (CASTRO; STURMER, 2009). Observou-se, ainda, que “cabe ao analista acolher o adolescente no setting analítico em sua totalidade psíquica. Amparar esse sujeito imerso num mundo permeado por urgências, repleto de transformações, conflitos, intensidades, contradições, movimentos, inseguranças, ambivalências, inquietudes, perplexidades, dúvidas e ansiedade”.

    O setting analítico

    Conclui-se que para adentrar no setting analítico com o paciente na terapia com adolescentes, a elaboração da adolescência do próprio analista deve estar em adequada, dessa forma os sentimentos contratransferências, projeções, fantasias e o posicionamento do analista em um ou mais papéis (adulto, cúmplice e/ou mestre) propostos por Rassial (1999), podem ser evitados, e a análise de fato poderá ocorrer sem ressalvas, interdições e fracassos.

    A duração da terapia com adolescentes depende da resposta do paciente às sessões. Para alguns, ela pode cessar meses após a primeira consulta e, para outros, pode prosseguir por mais de um ano, ressaltando que deverá ter uma relação de interesse e empatia com o jovem, para que este se sinta confortável, consiga expressar suas emoções e se sinta mais seguro.

    Conclusão

    Freud não faz diferença entre adolescência e puberdade. Engloba neste último termo, as transformações corporais e psíquicas desta fase da vida. Em seu texto Três Ensaios sobre a Sexualidade (Freud, 1905), aponta como o trabalho psíquico mais importante, e doloroso, desta época da puberdade o desligamento da autoridade dos pais, o qual é imprescindível para a evolução cultural, dando, ao mesmo tempo, um certo caráter de crise na adolescência. Diante de todos os conflitos e transformações, muitas vezes o adolescente sofre e acaba se isolando.

    O adolescente não está preparado, num primeiro momento, para enfrentar as dificuldades e hostilidades que a vida apresenta, mas é o momento que toma em suas próprias mãos as responsabilidades de seus atos, existe a desilusão do Outro da infância, é neste momento que passa a ser autor de desejos que visam seu próprio destino e não mais a satisfação das demandas dos pais. É preciso que os pais aceitem o lugar desidealizado que o sujeito adolescente lhes confere. Só assim poderão contribuir para as importantes operações psíquicas da adolescência.

    Concluindo, pode-se dizer que os estilos parentais afetam o desenvolvimento dos filhos de forma global, na formação de competências básicas que gradativamente influenciam comportamentos complexos, como por exemplo, a decisão profissional. Por isso, as relações familiares tornam-se ainda mais importantes na compreensão das situações vivenciadas pelos filhos na adolescência sendo um referencial de análise fundamental também em etapas posteriores na vida deste jovem. Como mencionado anteriormente, espero com o tema abordado, poder contribuir com meus mestres e na formação de colegas, assim como foi de grande produtividade para minha conclusão deste curso.

    A adolescência é um complexo processo de desabrochar, pelo qual todos nós passamos. Reconheço também, que esse tema é extenso, e que infelizmente, não será tratado de forma integral, mas a bibliografia será fiel e disponibilizada para mantermos e seguirmos nossos estudos.

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    Este artigo sobre terapia com adolescentes em psicanálise foi escrito por CAROLINA ROZMAN M. MAZZOTTI.

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